Outras Leituras – O Deus Maldito

Demorei algum tempo a mergulhar na leitura de O Deus Maldito devido à minha crónica falta de tempo, mas lá derrotei Kronos e valeu a pena…

Quando entrei no mundo da Carla, confesso que tive de reeducar a minha leitura, pois estava perante algo diferente daquilo que costumo ler e do meu estilo de escrita. Mas se primeiro se “estranhou”, logo se “entranhou”.

Surpreendido pela positiva, fui avançando página após página, com grande facilidade. Encontrara um bom ritmo, num enredo que se desenvolve constantemente, numa fantasia mágica em que, felizmente, não surge ninguém com “pauzinhos mágicos” a realizar “truques de mágia em série”. A Carla domou essa vertente mágica e a primeira grande exibição surge apenas na pág. 87 – no momento certo, quanto a mim.

O mundo “à parte” que nos é apresentado surge nebuloso, sem grandes descrições, pois este conto incide nas suas personagens ( emoções, acções e valores ).

As divindades surgem num interessante rasgo “humanizado” ( veja-se Usuor ) na boa tradição “Clássica”, não se coibindo de interagirem com o mundo dos mortais e revelando características marcadamente humanas. As restantes personagens surgem modeladas pelas suas posições hierárquicas, mas não são intocáveis, não abdicando de uma profunda faceta emocional – veja-se Sirius.

Aliás, a emoções são uma ambiência omnipresente num quadro geral que roça o poético/romântico.

Também me agradou o modo como as várias forças de vão movimentando no tabuleiro estratégico que antecede o conflito propriamente dito.

Desde que escrevi Goor que tenho um fraquinho pelas personagens com carácter de “enfant terrible” e desde logo senti alguma curiosidade por Kaylin Silverwings. Não sei se a autora partilhou este interesse ( talvez não… ), mas julgo que todo os escritores têm um género de personagem “fetiche”. A certa altura estive quase para dizer que a Silverwings o seria para a Carla…

Resumindo, o Deus Maldito é um livro que recomendo! A leitura é muito agradável, numa escrita que brota natural e sem artificialismos. Com a Carla fica mais uma vez provada a originalidade, qualidade e diversidade da escrita nacional. Espero que ela consiga encontrar os meios necessários para atingir novos patamares, onde possa continuar a “contar” o seu mundo. Ela já consegue fazer o mais importante: cativar o leitor!

 

Pedro Ventura

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