Os Filhos do Alto Mar

Em A Para Mais Longuinqua, Ursula K. Le Guin conta-nos como o Arquimago Gued e o jovem príncipe Arren iniciam uma demanda por Terramar, tentando descobrir a origem de um mal que assola o mundo. Na sua busca, viajam em mar alto, visitando várias ilhas daquele arquipélago, cada uma com as suas particularidades culturais.

De todos os povos dados a conhecer, há um que me fascina pelo exotismo. E esse povo não tem ilha, não tem terra.

Os Filhos do Alto Mar vivem para lá da Estrema Sul, “para além de qualquer terra ou cheiro de terra, para lá do voo das aves de terra, fora do conhecimento dos homens”. Vivem em jangadas de madeira durante toda a vida, em alto mar do primeiro ao último fôlego.

No Outono, os Filhos do Alto Mar vão a terra, até à Duna Longa, por um breve tempo, onde cortam madeira e reparam as jangadas. É o único momento em que homens, mulheres e crianças pisam terra. Chegado o Inverno, separam-se e cada jangada segue sozinha. Mas na Primavera, voltam a reunir-se em mar alto, numa região chamada Estrada de Balatrane. Aí formam uma autêntica cidade flutuante, como se lê na descrição do primeiro deslumbre de Arren sobre aquele local:

“Arren olhou. E viu, para a frente e para norte do barco, algumas muito juntas e outras dispersas até muito longe no mar, jangadas. Tantas jangadas que faziam lembrar as folhas de Outono caídas na superfície de um charco. Erguendo-se pouco acima da água, havia uma ou duas cabinas ou cabanas em cada uma, perto do centro, e várias ostentavam mastros erguidos. Como folhas flutuavam, erguendo-se e baixando muito suavemente sobre a vasta ondulação do oceano. As ruas de água brilhavam como prata entre elas (…)”.

A certa altura, Arren vai até à jangada do chefe daquele povo, a maior da cidade. Não resisto a transcrever também a descrição que lhe é feita, dada a sua especificidade e complexidade.

“ (..) feita de toros com quarenta pés de comprimento e quatro ou cinco de lado, enegrecidos e amaciados com o uso e o tempo. Havia estátuas de madeira estranhamente esculpidas erguidas junto dos vários abrigos ou recintos disseminados por toda ela e, aos quatro cantos, aprumavam-se mastros altos, coroados por tufos de penas de aves marinhas.”

Como podem perceber, trata-se de um pequeno palácio flutuante, com vários espaços. Com um pouco de imaginação, a imagem é incrível.

Vivendo toda a vida no mar, os membros deste povo estão mais do que adaptados à sua forma de viva, nadando como focas. No Verão a cidade está completa e os Filhos do Alto Mar passam de jangada em jangada, reforçam amizades, realizam casamentos e, como por toda a Terramar, celebram a Longa Dança.

 No fim da estação seguem as baleias, para norte, até à Duna Longa, dando início a mais um ano de vida nos mares de Terramar.

O Povo das Jangadas é tido como uma lenda para os povos de Terramar, “uma fantasia sem substância”, mas foi essa fantasia a salvar o Arquimago e o jovem príncipe.

Terramar é um mundo admirável, repleto de surpresas, e este povo é sem dúvida uma delas. Ao deparar-me com ele, fui arrebatado pelo seu exotismo, a sua peculiaridade, a sua adaptabilidade. Por isso destaco este pormenor de A Praia Mais Longuínqua, o terceiro da série Terramar, que não posso deixar de recomendar. Afinal, trata-se de um dos maiores e mais fascinantes universos fantásticos da literatura mundial. Não deixem de ler.

Curiosamente, há alguns meses vi na televisão um documentário sobre um povo asiático com hábitos semelhantes aos que aqui apresentei. As famílias viviam em pequenos barcos, e reuniam-se em épocas específicas. No entanto, o governo daquele país havia considerado ilegal o seu modo de vida, pelo que se trata de uma questão de tempo até àquele povo se extinguir. Bom ou mau?…

Seja como for, os fantásticos Filhos do Alto Mar perdurarão no livro de Ursula K. Le Guin.

A Estrada de Balatrane fica no estremo sudoeste do mapa, para lá das ilhas

A Estrada de Balatrane fica no estremo sudoeste do mapa, para lá das ilhas

Fontes: Cap. 8, A Praia mais Longuínqua, de Ursula K. Le Guin, Editorial Presença

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4 respostas a Os Filhos do Alto Mar

  1. igdrasil diz:

    Excelente texto; Um começo auspicioso para este projecto de que gosto muito. Realmente Ursula Le Guin tem qualquer coisa que nos faz sonhar e completar o seu universo com um toque de imaginação…é algo que apenas alguns autores têm e que distingue os aspirantes aos verdadeiros escritores…entre nós destaco a capacidade que o Pedro Ventura tem para oferecer ao leitor a hipótese de completar o seu mundo com imaginação…é pena que os escritores portugueses ainda sejam desconsiderados, mas enfim isto são outras histórias…

    Parabéns pelo primeiro sucesso deste teu projecto.

    Roberto Mendes

  2. Gostei! Sem dúvida muito interessante, este post deixou-me com água na boca em relação a esse livro😉

  3. igdrasil diz:

    Bem vindo de novo Francisco; a tua presença neste espaço é saudada por todos nós que ousamos querer criar um espaço de discussão e informação sobre a fantasia….

    Que voltes sempre!

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