O Estranho Caso da Prospectória Amnésica

Há bastantes meses, o Roberto convidou-me para participar neste espaço e deu-me liberdade de tema e periodicidade para contribuir com o que quisesse. Convites destes não surgem todos os dias e há muito que me encontrava em falta, em particular para  um espaço que procura acolher todas as vertentes e sabores do género Fantástico – mas, por outro lado, queria utilizar o espaço para uma abordagem menos pessoal, vocacionada para o género mas distinta do Tecnofantasia.com. A recente polémica sobre a dicotomia ficção científica/fantástico em lingua portuguesa incentivou-me a inaugurar a minha participação com a publicação online do artigo introdutório à antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, por versar precisamente sobre questões dos generation gaps, presente e passados, da nossa História do género. Não se trata de um estudo académico, e muito menos exaustivo, mas poderá servir como ponto de partida, ou de complemento, a outros debates mais aprofundados. O texto data de Outubro de 2007.

Luís Filipe Silva


O Estranho Caso da Prospectória Amnésica

Introdução à antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados

«Um dia, os homens concluiram que já não conseguiam, pelo estudo do passado, compreender o mundo em que viviam. Condecoraram a História, por bons serviços prestados, e fundaram a Prospectória. A partir daí, os acontecimentos mais complexos, insólitos e inesperados passaram a ser compreendidos através do estudo do futuro.

Convém fazer notar que, de início, a Prospectória existia sem que as pessoas disso se apercebessem. O tipo de literatura que pela primeira vez a utilizou era então conhecido pelo nome, nem sempre respeitado, de ficção científica ou, noutros casos, de antecipação.»

(Prefácio histórico à Prospectória da Literatura Correlacional, no ano 2012 d.C.)

Romeu de Melo, Não Lhes Faremos a Vontade

Num mundo perfeito, não haveria nada de especial nesta antologia. Seria um projecto como muitos outros, uma contribuição adicional para a volumosa resma de obras sobre o fantástico em língua portuguesa publicadas num determinado ano. Viveria nos escaparates a par de outros projectos da mesma natureza, mas melhores, mais profissionais. Teria de competir com edições majestosas que reunissem contos e novelas dos inúmeros autores do género da nossa praça; seria vizinha de antologias periódicas que apresentariam diferentes selecções «Best of», extraídas das inúmeras revistas de ficção, em papel e electró-nicas, editadas no ano anterior; perderia brilho junto de colectâneas temáticas repletas de contribuições, originais ou recuperadas da memória histórica. Num mundo perfeito, dizia, o apreciador do género fantástico em português perder-se-ia numa riqueza de oferta como actualmente, no menos perfeito mas mais real mundo em que existimos, acontece para o leitor de língua inglesa.

Como sabemos, como estamos fartos de saber, é difícil escrever em português. É bastante difícil publicar em português. E é extraordinariamente difícil escrever e publicar em português no género fantástico.

Por género fantástico, entenda-se, referimo-nos ao que, durante o século XX, e por vicissitude do aceleramento do progresso, da expansão do espaço urbano enquanto território artificial por excelência, da mecanização do quotidiano e dos estilos de vida, e da crescente manipulação intencional das leis naturais em prol do conforto humano e do desenvolvimento de uma tecno-ecologia, se viria a transformar o que até então era principalmente conhecido por mitos, lendas, histórias de assombrar, efabulações não tecnocráticas no geral. Sem menosprezar o facto de, segundo os especialistas, o dito «romance científico» ter surgido ainda durante o século anterior, seria durante o intervalo de descanso entre as duas Grandes Guerras que alguns autores popularuchos residentes no chamado Novo Mundo, o qual dava os primeiros passos no derrube da hegemonia cultural europeia, iriam desenvolver um tipo de narrativas que decorria em universos assumidamente imaginados, em particular visões do futuro, baseados em extrapolações lógicas das tendências do presente.

Eram escritores, na sua maioria, afastados dos grandes clássicos e dos angustiantes temas da existência humana — escrevia-se para comer, debitavam-se frases a conta-quilómetros para vender em revistas de frágil aparência e efémera durabilidade, fechados (como eles gostam de contar nas suas memórias) em quartos ou salas, junto à janela, a matraquear em máquinas de escrever sobre folhas de papel, em duas ou três camadas de papel químico. É uma imagem diferente da dos seus antecessores, debruçados sobre rolos de pergaminho, rabiscando com canetas de aparo e penas, com o uso directo e silencioso das mãos; a nova forma de escrever fazia-se acompanhar de um ruído mecânico, duro, como de uma máquina de tecer, qual ficção nascida do mesmo ventre da Revolução Industrial. É uma ficção consciente do mundo enquanto máquina, e do futuro enquanto território inexplorado mas possível de racionalizar. Quando se conhece todo o espaço, resta-nos a viagem no tempo. E para se viajar para o futuro, tem-se normalmente como ponto de partida o presente.

Vir-se-ia a chamar Ficção Científica a este processo narrativo, que, no pós-Segunda Guerra, começou a espalhar-se pela Europa, primeiro, e pelo resto do mundo, de seguida, acompanhando a expansão da presença cultural norte-americana e destronando as tradições de futurologia ficcionada (por assim dizer) já existentes nas culturas britânicas e francófonas, das quais os expoentes mais conhecidos foram Wells e Verne. Uma ficção que misturava, ou tentava misturar, num casamento complicado e (ainda hoje) difícil de definir, a abordagem racional do método científico com a especulação ficcional pura, e quase sempre envolta num ideal de fronteira e realização individualista — esta último factor fruto essencialmente do parto estado-unidense, mas a identificação era tão vincada que ainda nos nossos dias, perante uma Ficção Cientifica que se apresenta com vários sabores, ainda são muitos os críticos que preterem as narrativas que não contêm o que não passa de uma coincidência cultural.

No início o género desenvolveu-se e difundiu-se nas páginas das revistas e outras publicações periódicas, mais apropriadas para a veiculação de narrativas curtas ou de dimensão média, e foi apenas com o surgimento de meios de produção mais baratos, com a difusão do livro de bolso e o crescimento da população e da literacia, que o formato romance começou a destronar o papel preponderante do conto. Aliado aos movimentos dos anos 60 e 70, que questionavam os valores imutáveis da sociedade, e como tal, da ficção — influenciado pelo desenvolvimento de novos meios de comunicação, como o cinema e os jogos de computadores — confrontado com a crescente influência das gerações mais jovens sobre a forma de pensar o mundo, mais naturalmente virada para o futuro — perante uma complexidade crescente da sociedade, o género desenvolveu-se, abarcou novos temas, expandiu-se para incluir novos territórios de fantasia e impressionismo, e tornou-se numa indústria que hoje dá abrigo a milhares de empregos em todo o mundo.

Perante esta simplificadíssima ilustração da situação actual do género fantástico no panorama internacional, como se enquadra a literatura em língua portuguesa que com ele se identifica e cujos temas explora? Que pontos de contacto existem, que zonas de separação? Pode falar-se em identidade lusófona? Exploram as respectivas ficções temas próprios da nossa cultura? Pensa-se no futuro?

É natural supor que se procure a resposta destas questões, ou pelo menos pistas para estas respostas, quando se apresenta uma antologia desta natureza. Não foi contudo, o motivo pela qual foi concebida. Ou, melhor dizendo, não terá sido o principal motivo.

A escrita da ficção científica, e do fantástico em geral, é bastante instável na nossa cultura (e aqui refiro-me essencialmente a Portugal, embora duvide que haja muitas diferenças com o que ocorre no Brasil), não porque não haja vontade nem tentativas de incursões no género, mas porque, por um motivo ou outro, são singelas e particulares, e são reduzidos os autores que procuram fazer do género uma carreira literária — como se escrever fantástico fosse um ponto de paragem numa viagem mais longa. Não que isto não seja válido nem interessante para o leitor, mas o facto de parecer ser a norma e não a excepção torna-o num indício suspeito.

Parece ser este o caso de autores como Jorge de Campos (A Praia dos Deuses), José Leonardo (Estórias de Clausura), Vasco Curado (A Casa da Loucura), Maria Moura-Botto (O Regresso de D. Sebastião), Ana Godinho (Artiauri), Valério Romão (Medo em Seis Andamentos), Manuel Pais (Metacarne), Manuel Vale de Almeida (Euronovela), Carlos Águas Amaral (Morte Certa), entre outros, que lançaram um conjunto de obras — algumas em editoras de renome, outras em edições de autor — relacionadas com o género, no final da última década do século XX, e logo desapareceram do mapa, ou dedicaram-se a outras activida-des. A tendência não é específica desse período, pois inclusive durante todo o século passado as conhecidas incursões de Amílcar de Mascarenhas (A.D. 2230), Frederico Cruz (Através do Espaço), Luiz de Mesquita (O Mensageiro do Espaço), Alves Morgado (O Construtor de Planetas), entre outros, surgiram igualmente como pequenas contribuições, na maioria discretas e prontamente caladas, para um universo ficcional português.

O que não significa que alguns destes casos (nomeadamente o de Mascarenhas, que teve, pelo menos, uma tradução em francês — talvez por se adequar tão bem à filosofia do Estado Novo), não tenham despertado na época algum interesse. Portugal teve, na década de 1920, e pelo menos durante os primeiros anos da década seguinte, uma interessante produção de pulp fiction e romances de cordel, cujas narrativas, embora focadas principalmente em assuntos detectivescos e intrigas amorosas, iam sendo apimentadas com alguma especulação fantástica; decerto não seriam piores que as congéneres americanas e francesas (nas quais se «inspiravam» com frequência), mas mesmo assim dali não surgiu uma geração de autores e obras consistentes, capazes de se libertar dos condicionalismos e fraquezas deste tipo de ficção e desenvolver uma abordagem fresca e inovadora — nem que fosse por acompanhamento e resposta face às Amazing Stories, Astounding e demais revistas estrangeiras.

Este não é o foro para especular sobre motivos desta ausência, embora o principal não me pareça ser a inevitável desculpa da repressão do Regime; sem questionar de modo algum a influência nefasta na nossa literatura que teve a mentalidade nacional, vigente durante décadas, que se concentrava no umbigo e virava as costas ao exterior e ao futuro, aqui ao lado, na vizinha Espanha, também submetida a uma ditadura e traumatizada por uma violenta guerra civil, surgiram no entanto, e ainda hoje estão disponíveis (sendo objecto de culto e estudo académico), as ditas novelas de a duro, repletas de ficção científica épica, com particular destaque para as obras do galego Pascual Enguídanos (La Saga de los Aznar) e do gaditano Ángel Torres Quesada (El Ordem Estelar), que tiveram o seu auge nas décadas de 50 e 60 – sendo ainda de salientar a importância de algumas colecções de décadas posteriores, como Nueva Dimensión dirigida por Domingo Santos, que ia publicando um ou outro autor espanhol (inclusive ele próprio) no meio dos autores traduzidos. No Brasil o exemplo era seguido pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, sob o qual se desenvolveram os talentos de André Carneiro, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone. Inclusive a publicação de autores como André Carneiro em terras americanas e de Lima da Costa na Suíça, derrubará a outra desculpa, a de que se trata de uma questão de língua, e que o espírito lusófono estava prenhe de poesia e considerações intimistas impróprias ao consumo internacional.

Começámos por dizer que não havia nada de especial nesta antologia. E de facto não há. São inúmeros os exemplos do passado, de livros que incluiram contos de autores de língua portuguesa do género fantástico.

Em 1961 surgia, no Brasil, a primeira antologia de ficção científica que recolhia os autores promovidos por Dorea, e sete anos mais tarde, em Portugal, Lima Rodrigues, em colaboração (involuntária?) com Robert Silverberg, editaria Terrestres e Estranhos, na qual se encontram contos fantásticos de Natália Correia, Dórdio Guimarães, Fernando Saldanha, Hélia, Luís Campos, Lima Rodrigues e Manuela Montenegro, a par com autores norte-americanos.

Já na década de 70, Natália Correia voltaria a incorporar a antologia (em dois volumes) Alguns dos Melhores Contos de Ficção Científica, editada por Romeu de Melo, onde também constava uma das colaborações deste.

Natália Correia, Romeu de Melo, Mário Henrique-Leiria (principalmente com os seus Casos de Direito Galáctico), Isabel Meireles (editora e tradutora de uma antologia de autores franceses de ficção científica), fariam parte de uma geração que, nas décadas de 60e e 70 procurou acentuar a chama do género, produzindo um conjunto de obras, essencialmente a nível do conto. Embora hoje estejam completamente ausentes das livrarias e da memória, no caso particular de Romeu de Melo, a sua obra destacou-se e foi alvo de estudo por parte de um catedrático americano («Doomsday, Flying Saucers, and the Golden Age in Six Stories by Romeu de Melo», por Timothy Brown, Jr.). Em paralelo, Roussado Pinto, Luis de Campos e outros, constituiam um grupo mais dedicado ao policial e à banda desenhada, mas cujas afinidades com o género, seguindo as pisadas da geração da revista Repórter X (onde se destacava o editor Reinaldo Ferreira e Mário Domingues), não deixavam de existir.

E contudo, não é justo atribuir a estas gerações que trabalhavam na sombra e contra as opiniões de uma inteligentsia sobranceira (algo que é eterno e comum a qualquer das gerações de autores de literaturas alternativas), a grande responsabilidade por mais uma quebra da continuidade. Os editores tiveram também aqui um quinhão importante. Ou antes: a ausência de editores.

Porque, se no Brasil, Dorea criara um espaço para desenvolvimento de projectos literários, e em Espanha, Santos seguia-lhe as pisadas, em Portugal, onde a colecção Argonauta teria início coincidente com essas duas iniciativas e igual finalidade, o acolhimento de obras nacionais foi nulo — e mantém-se até hoje, numa época em que a colecção estrebucha num estertor de morte [1]. Sem querer menosprezar a sua contribuição importantíssima para a divulgação da FC internacional, a verdade é que, nas centenas de títulos editados durante os cinquenta anos de actividade, não encontramos um único autor português, e só em 2006 é que uma brasileira, Márcia Guimarães (A Conspiração dos Imortais), consegue romper este impenetrável crivo editorial. Se o mesmo resultou de decisão consciente do director de colecção, ou se os manuscritos submetidos (porque decerto os haveria) simplesmente não eram considerados como tendo qualidade suficiente face às obras estrangeiras, é algo que se desconhece. Mas não deixa de ser sintomático, e pouco abonatório para a produção nacional, que nunca um português tivesse sido incluido na mais antiga e prestigiada colecção de FC do país, numa época em que o incentivo teria certamente produzido efeitos benéficos para o desenvolvimento do género. E por sinal, ou talvez por herança, quase todas as outras outras colecções que se viriam a impor durante a década de 80 seguiriam a política das portas fechadas — apenas uma ousou quebrar a tendência. Só com o surgimento, no final dos anos 80, de uma iniciativa ímpar no espaço nacional, a de um prémio bienal destinado a originais de ficção científica e fantástico — atribuído pela primeira vez em 1985, a par de um idêntico prémio para originais na área do policial —, e que daria azo ao início de uma colecção regular, dirigida pela mão de Belmiro Guimarães sob a chancela da Editorial Caminho, é que os autores portugueses encontrariam finalmente um espaço de acolhimento regular numa editora sólida e de prestígio.

Nesta fornada surgiriam João Aniceto, Isabel Cristina Pires, Artur Portela Filho, João Barreiros, Daniel Tércio, António de Macedo, Luís Filipe Silva, Ana Godinho, João Botelho da Silva, Luis Richeimer de Sequeira, Miguel Vale de Almeida e Maria de Menezes, entre os portugueses, e Gerson Lodi-Ribeiro, Roberto de Sousa Causo, e Bráulio Tavares, entre os brasileiros. Considerados por alguns como a «última tertúlia literária portuguesa do século XX», alguns destes autores começaram a ler-se e a influenciar-se mutuamente; surgiam finalmente romances com alguma regularidade, alguns em colaboração. Criou-se uma associação cultural e promoveu-se encontros internacionais. No ano de 1993 a colecção de capa azul da editora publicaria somente originais portugueses. E obviamente, para não quebrar a tradição, poucos anos depois a chancela terminaria, e os autores estavam de novo sem espaço de recreios.

No entanto, hoje em dia a realidade é diferente, e com o advento da internet, das revistas electrónicas, das iniciativas pessoais de publicação, e de editoras pequenas e independentes, surgiu um fluxo de autores e ficções como não se conhecia até então, ou era pelo menos pouco divulgado. A expansão do mercado decorrente do fenómeno Harry Potter e Tolkien nos primeiros anos do novo século veio incentivar autores de livros juvenis a apostar em temas do fantástico, e verificou-se uma tendência invulgar de promover jovens autores e respectivas primeiras obras, algumas ainda padecendo das naturais fragilidades dos primeiros escritos, como se fossem génios precoces da literatura, somente com a finalidade de aproveitar uma situação de mercado e sem consideração pela respectiva continuidade enquanto autores. Surge aqui uma nova geração, uma geração mais próxima do público jovem a que também pertence, e que bebe de um tema comum (fantasia épica em ambiente medieval) originária dos filmes e dos jogos informáticos, mas que parece ser um fenómeno fechado em si mesmo, reflexo da internacionalização crescente da indústria do livro, e que em nada, ou pouco, se identifica ou conhece das gerações precedentes.

Mais uma vez a história do fantástico em língua portuguesa renascia das cinzas, novamente com uma aparência rejuvenescida e completamente amnésica da geração que a tinha precedido. Isto não deixaria de ser uma oportunidade para uma inovação diferenciadora, não fosse o facto de, constantemente, o ressurgimento se inspirar, de forma exclusiva, em moldes e temas definidos pelas literaturas estrangeiras, e não tentar sequer dar continuidade ao trabalho já efectuado nem ter consciência do mesmo. Mas porque deveria tentar? Se invariavelmente as obras do passado se encontram esgotadas, são poucas e difíceis de encontrar as tentativas de catalogação bibliográfica (a primeira da autoria de José Manuel Morais e Álvaro de Sousa Holstein nas edições &etc, e mais recentemente uma iniciativa online pela mão de Jorge Candeias), os próprios críticos conhecem melhor a história da ficção norte-americana que a da nacional e raramente referem obras do passado português, e não existe sequer uma obra seminal, definitiva e detalhada — apesar dos bravos esforços de Maria do Rosário Monteiro e Teresa Sousa de Almeida, entre outros — sobre a história da Ficção Cientifica portuguesa (e digo essencialmente portuguesa porque o Brasil, mais adiantado do que nós nestas andanças, foi recentemente presenteado com um extenso estudo pela mão da norte-americana M. Elizabeth Ginway, e o qual vos recomendo vivamente, como complemento destas observações sobre o género em Portugal)? Somos aparentemente uma literatura em permanente estado amnésico.

De facto, nesta situação de quase completa ignorância da existência do largo historial de contribuições esporádicas para o género, de perda inclusive da memória de curto prazo face a livros editados há menos de uma década, como manter coesa uma literatura de fantástico e esperar que haja autores e público envolvidos num discurso conjunto e permanente, e que se produzam obras de referência, se desenvolvam temas em conjunto, e se contribua para o discurso literário do género com complexidade e desenvoltura similares ao que fazem os seus profissionais em mercados estrangeiros?

Como negar a afirmação de que é difícil escrever e ser-se lido no espaço lusófono quando se é autor de fantástico? E que todas as tentativas e renascimentos acabam invariavelmente no esquecimento?

Quando iniciámos este projecto, eu e o Jorge, há dois anos, não era isto que tínhamos em mente, como já referi, mas uma necessidade de estabelecer um espaço de criação e publicação de originais, num ambiente mais aberto e democrático do que sentíamos existir na ocasião. De facto, embora durante anos a associação Simetria tivesse organizado regularmente um conjunto de antologias de contos originais, e incluísse o vencedor de um concurso que ela própria promovia, estas antologias eram veículos de publicação com cariz de exclusividade, tendo nascido pela necessidade de representar a ficção portuguesa numa convenção internacional e nunca se libertando desse estigma nas edições posteriores, mesmo quando já não fazia sentido. Quando se tentou torná-las em algo mais abrangente e aberto a outros autores, surgiu a inevitável cisão do grupo e a quase cessação das actividades permanentes. Embora existissem dentro da associação outros métodos de publicação — em newsletters e na internet — e fora dela — fanzines e revistas como a Nebulosa, Omnia, Dragão Quântico, Hyperdrivezine, e mais recentemente, Bang!, Nova e Phantastes —, estes espaços pautaram-se quase sempre pelas naturais restrições a nível de dimensão das narrativas, impostas pelo formato, e capacidade de produção e divulgação de exemplares.

Assim, a presente antologia acabaria por ter como orientações principais: estar aberta a todos os autores, portugueses ou estrangeiros, ser feita em língua portuguesa, aceitar uma variedade de temas desde que enquadráveis no género fantástico, e orientar-se para o formato noveleta (que se situa, em termos de dimensões, entre o conto e a novela) de forma permitir às narrativas maior capacidade de desenvolvimento.

A resposta foi entusiástica, chegando a 70 colaborações ao final dos poucos meses do período de submissão, dos quais acabariam por ser seleccionados (por critérios de qualidade, diversidade de temas, diversidade de nacionalidades, e equilíbrio global do livro) um conjunto de 14. A leitura do conjunto daria um estudo muito interessante sobre as aptidões e preferências dos autores actuais, o qual não se enquadra nesta pequena introdução. Talvez aqui se encontrasse algumas das respostas para as questões de identidade nacional e diferenciação do fantástico lusófono. Não sei se esta antologia contribuirá com mais do que algumas pistas, e sinceramente, de que sequer devesse contribuir. Não pretende ser de modo algum representativa de um espaço, uma cultura ou uma nação. Mas alguns factos curiosos podem ser apontados:

Que é a segunda antologia no espaço de quinze anos a reunir autores portugueses e brasileiros em perfeita equiparação, no seguimento de O Atlântico Tem Duas Margens, organizada por José Manuel Morais em 1993.

Que nenhum dos autores constantes nessa primeira antologia é repetente nesta — aparte o editor da presente —, ainda que continuem, na maioria, activos e a publicar.

Que, se na primeira, se falava mais do futuro e de nacionalidades, destacando-se um par de histórias fortes que se situavam vincadamente em terras brasileiras e portuguesas, na actual a questão dos territórios, com a excepção do excelente conto de Octávio Aragão, é quase sempre circunstancial e as narrativas quase poderiam decorrer noutro lugar e tempo (passado); mesmo o resultado assombroso de Carla Cristina Pires, retratando minuciosamente uma época e cultura no contexto de história alternativa (no Atlântico a história alternativa estava a cargo de Gerson Lodi-Ribeiro com «A Ética da Traição»), e que poderia ser a segunda excepção, decorre exclusivamente na era dos descobrimentos, ou seja, no passado, e portanto, não o é.

Que é complicado falar-se de uma língua comum face às evidentes diferenças gramaticais, e à questão de harmonia que de imediato se coloca a uma edição, tendo-se decidido por manter o texto português e o texto brasileiro inalterados, cada qual na sua grafia original, intercalados, pois fazia tanto sentido adaptar um como o outro, e algumas das histórias necessitam da diferenciação da linguagem — e de qualquer forma, coexistimos pacificamente a nível da fala, porque não na escrita?

Vicissitudes várias, algumas derivadas de uma abordagem demasiado positiva ao início (por exemplo, devíamos ter iniciado o projecto já com o compromisso firme de um editor, ao invés de procurá-lo após o facto), outras por motivos pessoais, dificultaram e atrasaram a saída do livro. Este encontra-se finalmente nas vossas mãos, para ser avaliado tal como é. Não aspira ser um expoente máximo, não presume mostrar-vos formas de escrever jamais vistas. Não se posiciona como a grande antologia representativa da ficção científica lusófona. Não sabe se vai continuar ou manter-se pelo número zero. O futuro em português é uma incógnita. Apenas sabe e pode concretizar factos, as histórias em si, presentes deste volume, o convite a descobrir e honrar os autores que persistem em escrever no género. É essencialmente um espaço para publicação de contos de qualidade em língua portuguesa no género fantástico. Como deveriam ser tantos outros, se vivessemos num mundo perfeito.

Luís Filipe Silva, Outubro de 2007

[1] – Desde a data em que o artigo foi escrito, a Livros do Brasil anunciou efectivamente o encerramento da colecção Argonauta de bolso.

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6 respostas a O Estranho Caso da Prospectória Amnésica

  1. nfonseca diz:

    Nem a propósito, acabo de fazer um post no meu blog a lembrar a Isabel Meyrelles, e a fazer uma sugestãozinha. Já que estamos em tempo de sugestões ao fandom e a toda a gente.

  2. igdrasil diz:

    Luís,

    Muito obrigado por esta primeira, espero que de muitas, participação. Um texto muito bom, que nos fornece muita informação sobre esta “generation gap” que talvez se tenha feito sentir na discussão que tomou lugar aqui no correio e noutros espaços. Gostei especialmente de poder conhecer os nomes de alguns autores que experimentaram a ficção científica, alguns dos quais confesso que desconhecia.

    No seguimento deste e do post do Nuno tentei encontrar forma de contactar a Isabel Meyrelles, contudo não existe qualquer informação de contacto na web.

    Como eu já previa, os teus posts trarão uma enorme qualidade ao correio, especialmente pela tua experiência no meio da FC.

    Um abraço

  3. nfonseca diz:

    Se calhar, contactando a Quasi, para quem a IM julgo que esteja a dirigir uma colecção de livros do Cruzeiro Seixas, seja possivel obter algum contacto. Mas vou avisando que não deve ser muito fácil, tanto mais porque quanto me parece, a senhora deve viver em França.

  4. Álvaro Holstein diz:

    Iniciativas deste género são sempre óptimas e de louvar, apesar de não ter visto ainda o livro cá por estas bandas.

    Voltando ao texto principal cabe-me esclarecer que a Argonauta nunca publicou nenhum português porque e segundo disse Eurico da Fonseca (director da colecção quase até à sua morte e tradutor de muitas das obras) aquando do lançamento do livro de João Aniceto, O Quarto Planeta (critica de JC em http://e-nigma.com.pt/criticas/quartoplaneta.html) “não queriam ferir susceptibilidades. Belíssimo argumento. Não é assim um mistério. Sobre este lançamento farei mais tarde um post.

    Soube vai para uns dias que a Argonauta vai continuar depois deste interregno, só que com novo formato e periocidade. Sairá bimensalmente. Espero que seja verdade, pois pelo que sei será a mais antiga colecção da Europa no género.

    A Isabel Meireles vive em França vai para muitos anos. Era uma apreciadora do género, mas nada que se possa considerar próximo do fandom. O seu papel na divulgação da fc e f deve-se sobretudo à sua relação com a Natália Correia e o Romeu de Melo. As suas ligações com a cultura francófona levaram inclusive à publicação de uma entrevista ao Romeu na Imagine no Canadá, em 1980. Assim como alguns contos dele eram obra de estudo obrigatório na Universidade de Tucson, no Arizona.

    Curiosamente raramente se fala da Antologia do Conto Fantástico Português, editado pelas Edições Afrodite em 1967 e com 2ª edição em 1974, com revisão, notas e prefácio de E. M. de Melo e Castro e esta é sem dúvida um marco incontornável da edição de Fantasia em Portugal.

    Infelizmente os exemplos que se tem de publicação neste país são não de agregação mas de exclusão.

    Ou se pertencia ou agregava a um dos grupinhos ou rapidamente se era excluído e mesmo aí tinha que fazer sacrifícios aos líderes. Confrangedor.
    Exemplo disto são “os diários” do Gerson em http://members.tripod.com/gerson_lodi/cascais1.htm

    Como se não fosse suficiente funcionava o sistema de trocas e dos testa de ferro.

    Espero que realmente se esteja a começar um novo ciclo em que este tipo de comportamentos estejam definitivamente erradicados.

    Os sinais até ver não é isso que apontam.

  5. Maria José de Lima-Neto diz:

    Gostaria de poder anunciar que o meu romance O Regresso de D. Sebastião está a ser publicado por uma editora em Espanha e tenho um novo romance sobre Invasões Francesas passado em Portugal para ser agora publicado no nosso país e provavelmente em Espanha. Quem estiver interessado que me contacte.
    Muito grata pela vossa colaboração.

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