Vencedores passatempo Editorial Presença\Correio do Fantástico

É imperativo começar por agradecer as participações que ascenderam a algumas dezenas. Na análise dos textos a qualidade dos mesmos foi aferida por critérios de ritmo, solidez do texto, bom português e pelo impacto do  momento em que a gárgula ganha vida.

Os vencedores(as) são:

Carina Monteiro e Carla Ribeiro

Texto da Carina:

A chama da candeia tremeluzia por entre a densa escuridão, enquanto se aproximava do altar fúnebre da igreja. Por qualquer razão desconhecida, aquele local encobria-se de escuridão. Nenhuma tocha acesa o alumiava e os vitrais não permitiam a passagem do inexistente luar.

Subitamente, escutou um estalar ruidoso, provindo de um dos cantos da igreja, e estacou, com mais medo do que um ladrão profissional deveria ter. A mão procurou o bolso das calças, retirando um canivete que se apressou a abrir. Avançou na direcção do barulho, de arma empunhada, a candeia revelando, metro a metro, o caminho à sua frente. Encontrou somente uma parede e uma recurvada estátua de três chifres e garras tão afiadas quanto um felino selvagem. Não percebia como permitiam que tal horror permanecesse dentro da igreja, competindo com a pacificidade dos santos.

Encolheu os ombros e voltou costas à gárgula, continuando até ao destino, onde se encontravam expostos os pertences em ouro e as estatuetas mais preciosas. Um novo estalar fez-se escutar, mas desta vez ignorou-o. Não deveria passar de uma ratazana esfomeada, explorando a igreja em busca de migalhas… Novo ruído de pedra contra pedra, mas baixo, muito baixo. Estendeu a mão para uma peça que representava a Virgem Maria. Porém, algo o deteve. Um bafo quente tocou-lhe o pescoço e o ladrão voltou-se, de arma em punho, pronto para cortar a garganta ao padre que interrompera o seu saqueio. O canivete deslizou sobre a pedra, soltando faíscas, mas depressa caiu ao chão. Dois olhos rubros fitavam-no da face pétrea da gárgula que vira ao canto da igreja, tão morta quanto qualquer pedra poderia estar. Mas aquela não estava e os lábios arreganhavam-se, mostrando as presas assassinas. Não conseguiu gritar, a voz estrangulando-se-lhe na garganta. O coração falhou e ele morreu do mais puro terror.

Texto da Carla:

    Um Abraço de Pedra

Os sinos da torre anunciam a meia-noite. Lá  em baixo o mundo dorme. Eu, contudo, não sou como eles. Eu desperto quando eles partem para as asas do sono e quando o ritmo da respiração humana abranda o meu corpo de pedra abre-se ao ar nocturno e o meu coração recomeça a bater.

Sou uma estátua, claro, e provavelmente, se me lerem, vão julgar que estes devaneios são fruto da imaginação de um escritor com escassez de ideias. Mesmo assim, e ainda que não acreditem, é isso que sou, uma estátua perdida na solidão dos séculos por vir, abandonada na ruína daquela funérea memória, do que ela fez, do que eu fiz…

Acabava de despertar, naquela noite, e o meu corpo de pedra começava a sentir a vida quando a vi, aqui, tão perto de mim, nas alturas da minha torre de vigia. Vinha como um sonho que divagasse e, naquele estado semi-adormecido, procurava nas minhas formas o conforto de alguém. A sua espécie, contudo, rejeitara-a pelo que era: tímida, solitária, pensativa. Falavam dela, quando se afastava, e, sem sequer baixar a voz para que a proteger das suas injúrias, chamavam-lhe louca.

Tudo isto me disse ela sem saber que falava, enquanto, algures entre o sono e a realidade, avançava para os meus braços, murmurando. E foi tal a compaixão que dominou o meu coração de pedra, que correspondi ao seu abraço, permitindo que se abandonasse contra o meu corpo até que as suas lágrimas secassem.

Naquela noite, eu era apenas uma estátua e era isso que ela via. Não sentiu os meus braços em seu redor e, quando amanheceu, não notou o meu regresso à pedra. Simplesmente saltou da minha torre, perante os meus olhos petrificados, deixando-me só o tormento de a ter deixado partir…

A todos um muito obrigado,

Roberto Mendes

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2 respostas a Vencedores passatempo Editorial Presença\Correio do Fantástico

  1. Não tenho nome nem interessa diz:

    Os vitrais não permitiam a passagem de algo que nem sequer estava lá?

    Mas isso faz algum sentido???

  2. Ora, quando o escrevi, servia para salientar o facto de não existir qualquer género de luz. Se houvesse luar, os vitrais deixá-lo-iam passar, a não ser que não fossem limpos há muito tempo (xD). Como ele não existia, era impossível os vitrais permitirem a sua passagem.

    E tenho de agradecer, por ser uma das vencedoraa. Só soube agora do facto, estive fora o mês inteiro… –‘
    Obrigada ^^

    Carina Monteiro

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