Ficção Dagon nº0 – Opinião

Foi-me sugerido deixar aqui as minhas breves considerações acerca da ficção da revista Dagon nº0. Espero que sirva para incentivar a troca de opiniões no Fórum Correio do Fantástico.

Já li toda a ficção da Dagon nº0, há já algum tempo aliás. Deixo ficar aqui algumas considerações breves, de carácter meramente pessoal até porque, devo dizer, não estou completamente à vontade ao falar de ficção curta.

Começando por “Darwar de Celénia”: que bom voltar a Celénia e ao universo de Pedro Ventura! Pareceu-me um conto denso, que reforça o tom épico, com a tradicional mensagem de heroicidade e bravura dos grandes guerreiros. Gostei do protagonista e de Hulgro e da tensão que envolvia a personagens, e não gostei tanto da previsibilidade de certas opções. Não me parece fácil explorar o épico em ficção desta natureza, mas acho que o autor conseguiu estruturar um conto com princípio, meio e fim que, não surpreendendo, me agradou pela mensagem.

Quanto ao conto do Roberto… já havia lido o início deste conto no fórum, e ler o resto reforçou o meu ponto de vista. Parece-me que, de certo modo, existe um exagero no estilo. O que, por vezes, pode parecer um tom mais criativo ou poético acaba, a meu ver, por se traduzir em frases tão estilizadas que se perde o conteúdo, numa espécie de romantismo ou barroco exagerados… Mas existe conteúdo como é óbvio, e o modo como as divagações/delírios foram maneadas pareceu-me bem. E, na verdade, o estilo não me impediu de ler com agrado, pois gostei de me embrenhar nas palavras. A “história” em si é interessante, e cheguei a deslumbrar similitudes com um conto de Poe.
Em suma, acho que o Roberto tem o que é preciso para criar um conto do género bom nos diversos aspectos. Não se saiu mal com esta história, mas acho que se deixou levar demasiado pelas palavras, numa divagação desproporcionada.

Segue-se Carla Ribeiro. Já havia lido o seu texto “Queria Ser de Cinza”, no fórum, e gostei imenso. O seu conto veio consolidar a minha opinião positiva. Foi de longe a melhor surpresa e o conto que mais gostei de ler, simplesmente porque a autora tem uma escrita tão límpida, se é que me faço entender, que tudo fica perceptível e claro. Acima de tudo, Carla Ribeiro escreve e narra de uma maneira sublime. A sua história é simples e muito bem estruturada, usando neste conto conceitos e ideias muito cativantes. É aquela fantasia e aquele tipo de história que, diria eu, ficam muito bem neste tipo de colectâneas. A repetir e repetir e repetir.

“Deste Lado de Cá”, de Luís Filipe Silva, pareceu-me um cativante mergulho na Ficção Científica, com aquilo que mais e menos gosto no género. Não me entusiasmou, talvez a intenção também não fosse essa. Porém, o “universo” futurista que nos é apresentado, directa ou implicitamente, despertou a minha curiosidade e manteve-me atento à evolução e pormenores do conto. Gostei particularmente do ambiente descrito, nomeadamente do paralelismo com o mundo real (não simplesmente como é apanágio do género, mas por haver uma proximidade geográfica, e até social, especifica), e da expressividade simples e sintética com que o protagonista manifestava a raiva e a ironia ocasionais.

Nunca havia lido ficção de Jorge Candeias, e este “O Viajante no tempo!” pareceu-me uma boa maneira de começar. É um conto que vai direito ao assunto, curto e eficaz. E, claro, muito divertido e cativante. Gostei e acho que foi muito bem conseguido.

Francisco Norega traz mais épico com o seu “Batalhas Interiores”. Primeiro, os meus parabéns a este entusiasta tão jovem. Preocupou-se com os pormenores e com as descrições, embora nestas últimas talvez pudesse ter organizado as suas prioridades de outra maneira, já que o seu universo acaba por ser de difícil visualização – digo eu. É uma história com propósito – a julgar pelo final, bastante criativo – mas demasiado uniforme, ou seja, acho que lhe falta um certo ritmo. Seja como for, parece-me um mundo plausível que, não tendo algo concretamente fantástico ou surreal, agradará aos apreciadores do género, com os seus Poushi, Emoshi e estandartes verde lima. Estou curioso em relação a futuras criações do autor.

Por último, uma nota sobre a poesia de Carla Ribeiro: foi interessante ver o fantástico explorado desse modo. Sinceramente, não me maravilhei com os versos, porque não consegui alcançar a sua maioria, mas é poesia e representa uma área mais livre do fantástico. A continuar…

Fico à espera de outras opiniões.

Esta entrada foi publicada em dagon. ligação permanente.

3 respostas a Ficção Dagon nº0 – Opinião

  1. No que toca ao meu conto, muito obrigado pelas tuas palavras, Crítico.
    Sim, acho que as descrições não conseguem dar uma imagem concreta do espaço físico. É um aspecto a melhorar, em termos arquitectónicos imaginei uma civilização na minha opinião interessante, mas não o consegui transmitir de forma correcta. Talvez numa melhorada versão do conto😛
    Quanto ao ritmo, bem, fica a opinião registada😉
    Quanto ao mundo em si, não tem nada de propriamente “fantástico”, o mundo apenas é povoado por povos ligeiramente diferentes dos de nós, pouco mais que isso xD O objectivo não era criar uma obra de fantasia com um background complexo, era sim escrever uma obra predominantemente emotiva e sentimental.

    Mais uma vez, obrigado.

  2. pventura diz:

    Obrigado por esta crítica sincera e contrutiva que aponta um dos problemas que tive: colocar o “couraçado do Épico” dentro de um “rio”. Tive portanto de recorrer a certas opções…

    A crítica do Jorge Candeia ( mesmo não sendo apreciador do género ) também me pareceu inteligente e útil.

    Abraços!

  3. igdrasil diz:

    Obrigado Crítico:) Sempre com razão nas críticas!!!

    Roberto

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