Dois ou três títulos e um Rebuliço -Francisco Norega

Texto de Francisco Norega

Nos últimos tempos temos tido uma forte movimentação nas águas do mercado português de literatura fantástica. E, tendo em conta as fortes reticências com que os leitores e editores recebem e publicam ficção curta, é com agrado que vejo diversas antologias e revistas a serem publicadas num tão curto espaço de tempo.

A Saída de Emergência preencheu, em Julho, um espaço do mercado de Ficção Cientifica em português que há muito urgia ser preenchido, publicando Com a Cabeça na Lua, uma antologia que recolhe diversos contos de autores como Heinlein, C. Clarke e Asimov, que escreveram sobre uma, na altura ainda hipotética, viagem à lua, e que traz ao público português dez exemplos da ficção cientifica “hard” da Golden Age. E agora, volvidos três meses sobre esta publicação, a SdE prepara-se para publicar uma colectânea de contos de Arthur Machen, “um dos homens mais importantes do início do século em escrita fantástica e no terror”, intitulada, precisamente, de O Terror.
Também graças à Saída de Emergência, pudemos ler, no fim do semestre passado, na Bang! nº 6, diversos contos e artigos da autoria tanto de autores portugueses como de estrangeiros.
Passados uns meses, já depois da dissolução do fanzine Nova [RIP ='( ], Roberto Mendes e Rita Comércio quebraram o monopólio da Bang!, lançando o primeiro número da revista Dagon. Um formato algo diferente daquele a que temos sido habituados, mais próximo do público na medida em que não se limita aos habituais nomes do chamado fandom (atenção, emprego este termo sem qualquer preconceito), e mais abrangente, não se limitando apenas à literatura fantástica, mas estendendo-se às manifestações do Fantástico na música, no cinema e nas artes plásticas.
Mas também a Gailivro, que está igualmente de parabéns pelo trabalho que tem feito no meio, surpreendeu, publicando ficção curta. E mais, ficção curta portuguesa – As Atribulações de Jacques Bonhomme é o título da colectânea da autoria de Telmo Marçal, na minha opinião um dos nomes mais geniais da ficção cientifica lusa. E aqui gostava de fazer um pequeno aparte.

Enquanto Telmo Marçal é um nome desconhecido para a maioria dos fãs portugueses de fantástico, é, para mim, um dos nomes (a par de Luís Filipe Silva e Jorge Candeias, entre outros) que primeiro me vem à cabeça quando se fala de ficção científica portuguesa. Tomei o primeiro contacto com a sua escrita quando li a fantástica antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, e rendi-me automaticamente. “O Pico de Hubert”, para além de ser uma história passada numa distopia caótica, bem imaginada, com um enredo soberbamente orquestrado, é-nos nos dada a ler através da escrita de Telmo Marçal, sem dúvida dotado de uma grande mestria nesta arte.
Mais tarde, dei com alguns contos da sua autoria nos números 2 e 3 do Hyperdrivezine, que podem ser lidos aqui [foi o Ricardo Loureiro (também editor da recém-extinta Nova), um dos melhores editores de revistas que temos por terras lusas, na minha opinião, que o publicou pela primeira vez, ainda no formato website deste Hyperdrivezine], e no nº 5 da Bang!, que apenas fizeram reforçar a minha excelente opinião sobre o autor. Rapidamente se tornou, portanto, um nome a seguir com atenção.
No entanto, nos últimos tempos, nunca mais tinha ouvido falar dele. Foi, então, com alguma surpresa e muito agrado, que me deparei com esta colectânea. Finalmente em papel, depois de passar pelo Hyperdrive, “o Dragão Quântico, o Hyperdrivezine, o sítio Neolivros, a Scarium, o Tecnofantasia, o Phantastes, o Somnium[,] (…) a Nova” e, “até[,] (…) a antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados“.
Ainda não li As Atribulações de Jasques Bonhomme, mas estou muitíssimo curioso. Valerá a pena a leitura, sem qualquer dúvida.
[Crítica de Rui Baptista ao livro do Telmo Marçal no Bela Lugosi is Dead.]

Mas voltando ao tema inicial do post, não só antologias, colectâneas e revistas têm dado movimento às águas outrora um tanto estagnadas do Fantástico português. Também inúmeros concursos têm surgido, aqui e ali, para escritores de ficção científica a steampunk, de fantasia a horror, sejam eles já consagrados ou estejam ainda a dar os primeiros passos.
Gostaria de começar por fazer referência à Antologia Vaporpunk, para a qual foi feita a última chamada na semana passada, no Efeitos Secundários. Prazo de submissão a acabar já dia 18.
Por outro lado, mas também no seguimento de um texto publicado por Luís Filipe Silva no seu blog, Roberto Mendes lançou no Correio do Fantástico um desafio que, idealmente, culminará numa antologia em que versarão sobre “a conquista do espaço, a colonização de outros planetas, (…) que tipo de humanos farão a conquista (ou se esta falhará) e, principalmente, utilizando como personagens centrais os portugueses desse tempo: serão portugueses conquistadores ou falhados?”. Para ler aqui.
Mas também do outro lado do atlântico surgem projectos interessantes. Informa-me o Márcio: Até 15 de janeiro de 2010, a Andross editora estará selecionando contos para a coletânea Tratado Secreto de Magia, a ser lançada em abril de 2010 na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Correa, em São Paulo. Nosso objetivo é receber contos relacionados não só com a magia, mas também feitiçaria e bruxaria, desde histórias que remetam à realidade histórica, como a Inquisição, até tramas que sejam ligadas à fantasia, no estilo Harry Potter. Este Tratado Secreto de Magia é apenas uma das antologias que a editora Andross está a organizar de momento. Moedas Para o Barqueiro será uma antologia de contos que terão como temática a Morte, e os textos poderão ser submetidos até 30 de Janeiro de 2010. 2054, como o próprio nome faz antever, será constituída por contos de ficção científica, enquanto que Histórias Liliputianas será uma colectânea de 50 microcontos sem nenhum tema padrão – os prazos para submissão são, respectivamente, 30 de Novembro e 15 de Janeiro. E, agora fugindo um bocadinho ao tema do post porque sei que interessará a alguns leitores do blog, a Andross está também a organizar um antologia de poesia intitulada Ecos da Alma. [Para mais informações e contacto dos organizadores, consultar a página de cada antologia.]
Por fim, apenas uma última referência à Antagonista Editora, que está à procura de autores lusófonos, não só de Portugal, do Brasil e de África, mas também de Goa, Macau e mesmo da Galiza.

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