Uma memória – O Quarto Planeta

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Eu tinha pouco mais de 16 anos. Havia descoberto o fantástico não havia muito tempo. E o livro de João Aniceto fora-me parar as mãos por acidente. O meu pai achara-o num banco de jardim e trouxera-o para casa.

Foi com curiosidade cautelosa que o folheei. Era uma edição da Caminho de Bolso – Colecção Caminho Ficção Científica – com as folhas escurecidas em papel poroso. A capa não era nada de especial: um desenho infantil numa capa de fundo azul com o título em letras brancas, e a inscrição seguinte na parte de baixo:

«Já passara a hora do nocturno. As sombras alongavam-se na floresta e a noite caía. O observador que seguira toda a tarde o  pequeno grupo de humanos reduziu a distância.».

In, ANICETO, João, O Quarto Planeta, Editorial Caminho, 1986.

É um livro antigo, no entanto, a história é actual  e foi das melhores que já li.

João Aniceto conta-nos a história de uma humanidade que se vê obrigada a abandonar o mundo onde nascera. Parte, a bordo de uma nave enorme, em busca de um mundo que seja capaz de a acolher, que lhe dê a oportunidade de começar de novo. No entanto, as coisas correm mal. Algures entre a partida e a chegada o Homem perde o sentido de missão, embrenha-se em guerras, recria no espaço, a bordo de uma nave sideral, as divisões que outrora havia tido na Terra.

O autor relata-nos como essas coisas vão acontecendo, o fundamentalismo religioso versus o fundamentalismo Tecnocrático, os interesses mesquinhos de alguns que se sobrepõem ao interesse maior e que os fez esquecer a grande causa por que foram escolhidos: criar um novo mundo humano.

A forma como o autor o faz é simplesmente genial! O enredo vai crescendo de intensidade, mas fá-lo em dois caminhos.

João Aniceto conta-nos duas histórias ao mesmo tempo: numa fala-nos da nave e dos eventos que nele têm lugar; noutra fala-nos das atribulações de um povo humano, desenvolvido, submetido a um regime autoritário. As histórias parecem distintas, mas no final elas unem-se de forma espectacular e, se conseguirem ler este livro, entenderão porque não vos direi mais.

Pelo meio da história, João Aniceto, fala-nos ainda de conceitos como a verdade, a crença, a liberdade e de como tudo é relativo, dependente de quem escolhe, dependente das opções que nós fazemos. No final ficamos com a ideia, pelos menos eu fiquei, de  que não há garantias de que tudo seja, e sempre tenha sido, como nos contaram que era…

«Cada um tem a sua verdade. A cada um a verdade que necessita. A cada um a verdade que satisfaz»

In, ANICETO, João, O Quarto Planeta, Editorial Caminho, 1986

Se conseguirem encontrá-lo: leiam-no! Se já o leram, recordem-no…

Sobre Paulo J Fonseca

Escritor, leitor, apreciador do cinema e videojogos, admirador de artes digital e «ouvidor» de música. Gosto de divulgar tudo aquilo que me parece bom, tal como alertar para tudo aquilo que, parecendo bom, pode não ser tão bom assim.
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4 respostas a Uma memória – O Quarto Planeta

  1. Joao diz:

    é incrivel o que cada um vê nos livros
    tirando frases ocasionais o enredo do médico joão Aniceto era mui pobre dificultava uma leitura rápida e as pretensões a uma prosa à Ray Bradbury ficavam por aí presumo que o gajo ainda seja vivo tinha uma certa admiração pela escrita do clifford simak mas não pelas temáticas pelo que me disse um colega dele em évora tinha muito trabalho na unidade que dirigia e por isso até ao acontecimento que lhe limitou a carreira nunca deve ter tido tempo para aperfeiçoar o estilo narrativo que excepção feita a si e a mais 50% dos que pagaram para ler o livro como eu nunca foi um top de vendas da Caminho eu li-o aos 12 achei o tema banal rebuscado e repetitivo e acho incrível a sua capacidade de análise sobre este livro em particular talvez o volte a reler

    • Paulo Fonseca diz:

      Há algumas coisas que gostaria de frisar: nem tudo o que vende muito é bom; nem tudo o que não vende é mau; limitar as nossas opções de leitura aos rankings comerciais não é muito boa ideia. Não será preciso lembrar-lhe que foi por isso que que muitos escritores só foram reconhecidos depois da morte. Releia-o e depois diga-nos o que achou. Centre-se na história… Acho que vai ficar surpreendido…

  2. Pedro Pinto, Sintra diz:

    Eu li este livro já umas 2 ou 3 vezes… a primeira foi quando tinha uns 16 anos…. e dps mais tarde reli passado uns 10 anos…

    É um livro extra ordinário de FC, que demonstra que a FC em portugal tb tem lugar. Daria um filme de ficção cientifica do melhores, já que tem um enredo surpreendente com vários graus de profundidade….

    Ao londo dos dois enredos narrados, encontram se pontos subtis de contacto… os sacerdotes por exemplo….

    Tenho pena que este autor nao tenha feito mais nada.

    Aconcelho a ler.

    • Paulo Fonseca diz:

      Ol Pedro

      De facto, este livro extraordinrio; na minha perspectiva inovador, tambm; a forma como se encontra estruturado, as duas narrativas – aparentemente distintas – no devem ter sido fceis de escrever. Tambm eu tenho pena que no existam mais histrias de Joo Aniceto. No entanto, talvez, o Joo Aniceto tenha escrito mais livros fantsticos que jazam numa gaveta qualquer, s porque as editoras entenderam que no mereciam ser lidos.

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