Brinca Comigo!

“Com autores desta qualidade só poderia ser uma excelente antologia”


João Barreiros, David Soares, Luís Filipe Silva e João Ventura, aceitaram o desafio da Escrit’orio e surpreendem-nos com excelentes contos, repletos de originalidade e imaginação, subvertendo completamente o pendor cândido nomalmente presente na abordagens clássicas à temática dos brinquedos!

«Noddy50 abre os braços, perdido num êxtase sublime. Rupert19 dança de alegria à volta da sala, num tosco sapateado de vitória. Uma chusma de Kens e Barbies corre a abraçar aqueles pés descalços, encardidos e humanos. As Mamãs Locomotivas apitam em sinal de festa. Robôs pedagógicos aproximam-se, titubeantes, ansiosos por debitarem questões de resposta múltipla. E todos eles clamam em uníssono, de viva voz ou por rádio: “BRINCA COMIGO! BRINCA COMIGO! BRINCA COMIGO!”» – João Barreiros

«O rapaz foi buscar a foca de plástico à caixa e pousou-a sobre o balcão. Martin vacilou, mas agarrou nela. Sentiu a cauda a abanar. ‘E sabe como é que o tal senhor os põe a mexer?’, perguntou ele ao empregado. ‘Não vejo mecanismo nenhum.’
‘Não sei como funcionam’, confessou o rapaz. ‘Só os vendo.’
‘Está bem’, disse Martin. ‘Onde é que mora o homem que faz estes brinquedos?’
‘Ele é de fora.’
‘De fora?’ Martin coçou o nariz. ‘De fora, como? Mora no continente?’
‘Vive na Garganta.’» – David Soares

«Às 18 horas, a guia fechou a sala. Antes, fez uma inspecção para se assegurar que tudo estava em ordem. Na vitrina, a boneca olhou para ela. “Que disparate”, pensou, “não passa de uma boneca!”, mas sentiu um arrepio. E ao sair, depois de fechar a porta à chave, não conseguia eliminar da sua mente o brilho azul dos olhos da boneca.» – João Ventura

«Mas os utara tinham desaparecido. A substância rosada recheada de poeira utara. Todo e qualquer vestígio da presença deles. Excepto um… Esquecida no sótão, a toupeira de peluche tinha-se insurgido contra o tecto durante as horas da madrugada em que os grupos de busca andavam pelas ruas e montes à procura de uma cadeira de rodas tombada. (…) O meu irmão não iria voltar. Mas o Mundo teria agora oportunidade de sobreviver.» – Luís Filipe Silva

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