O Dom

Terminei um ano e comecei outro com o mesmo livro na cabeceira. Refiro-me ao livro O Dom, o primeiro volume das Crónicas de Pellinor, escrito pela australiana Alison Croggon.
A história começa numa aldeia isolada. Lá mora Maerad, uma jovem escrava que perdeu os pais na guerra de Pellinor. Vive uma rotina de trabalho, e só se sente livre quando toca a velha harpa da sua mãe. Inesperadamente, é resgatada pelo grande bardo Cadvan e descobre o seu Dom, até então adormecido. É através dos olhos de Maerad, da sua aprendizagem e da sua adaptação ao mundo livre, que o leitor conhece o universo que dá vida a esta saga.
Trata-se de uma história de fantasia cujo mote é a existência de pessoas com poderes mágicos: os bardos. A designação deixa antever a importância da música na concepção das capacidades mágicas destes homens e mulheres que são mais do que simples feiticeiros. Na verdade, a autora abordou o tema de uma forma bastante interessante, ao descrever a magia como uma característica quase ubíqua, usada não só para encantamentos mas também como auxiliar às mais diversas actividades. Mas para compreender este pormenor é preciso conhecer a sociedade que nos é descrita.
Em Edil-Amarandh, o Povo das Estrelas é visto como parte essencial da sociedade. As suas escolas são centros científicos e culturais onde os valores e o bem-estar são respeitados, pelos menos em tempos pacíficos. A formação dos bardos leva-os a trabalhar para manter o Equilíbrio, lutando pelo bem comum e desenvolvimento.
Esta sociedade foi bastante trabalhada pela autora, designadamente nos variados apêndices do livro. Alison Croggon tentou, exaustivamente e, a meu ver, até exageradamente, convencer os leitores do que a civilização que descreve existiu outrora. E se por um lado a técnica aumenta o entusiasmo e o fascínio, por outro recorda outras sagas do género.
No seu site, a autora não esconde a influência dos universos criados por autores como Tolkien e Ursula Le Guin, uma informação, infelizmente, quase desnecessária, por serem várias as analogias. Este é, precisamente, um dos pontos negativos da história: as bases civilizacionais, a mitologia, alguns aspectos do enredo e até a geografia pecam pela semelhança com outras ficções, com especial destaque para o universo tolkiano. Trata-se de uma similitude para lá do comum e por isso não a posso deixar de referir.
Para além deste aspecto, é de lamentar o facto de este ser um livro meramente introdutório. Infelizmente, tal parece-me cada vez mais comum: nesta obra, de cerca de 200 páginas, passa-se muito pouco. Há aventuras e intrigas, mas não as suficientes para justificarem a existência de um livro isolado. O livro só tem sentido como precursor dos restantes 3 volumes, característica corrente nas sagas de fantasia mas que, não posso deixar de dizer, me entristece e enfada.
Mas, voltando a O Dom, quero deixar claro que gostei do que li. Embora os princípios básicos da magia não sejam originais, o modo como estes se imiscuíam com a sociedade e com o enredo pareceu-me muito criativo e agradou-me bastante. Para além disso, vale a pena referir que a história está bem escrita (pese embora eu duvide um pouco das construções frásicas da tradução) e a evolução do enredo até é cativante. As descrições das paisagens e das cidades merecem menção, constituindo um dos elementos mais positivos da obra. Há episódios que me pareceram efectivamente desnecessários, e elementos que gostaria muito de ter visto desenvolvidos, mas, feitas as contas, é uma história (ou principio de história) atractiva e um bom exercício para os habituais leitores do género.
Sem dúvida, quero continuar acompanhar o percurso da protagonista. O livro original, The Gift, tem mais de 500 páginas e divide-se em quatro partes, sendo que apenas as duas primeiras estão presentes nesta edição. Resta-me esperar pela tradução das outras duas partes e dos três livros seguintes, The Riddle, The Crow e The Singing.
Tradução: Irene Daun e Lorena/Nunu Daun e Lorena;
Edição: Bertrand Editora, 2009
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