Asimov

Um texto republicado do site brasileiro oficina literária:

ASIMOV: FICCIONISTA E VISIONÁRIO DO FUTURO

Quarta-feira | 20 | Janeiro | 2010

Oficina Literária

Texto de:

Paulo

Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.

A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.

São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”

Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.

O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.

“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.

Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.

Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.

Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.

“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.

Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.

Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.

Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.

Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.

Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.

Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.

Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo.
>> OFICINA LITERÁRIA – por Paulo

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2 respostas a Asimov

  1. 470!! Independentemente do tamanho de cada volume é um volume de escrita impressionante.

    Só é pena que a maioria da adaptações cinematográficas das suas obras não cheguem aos calcanhares dos livros…

    http://cronicasobscuras.blogspot.com/

  2. sandokas diz:

    Sem dúvida um dos meus preferidos. Os seus contos nunca começam “a abrir”, mas assim que as cartas estão na mesa as conexões parecem nunca acabar.

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