Prólogo da “Guerra da Pirâmide”

Publicamos aqui, em conjundo

com o blogue Império Terra, o

prólogo do novo livro de Paulo

Fonseca, “A Guerra da Pirâmide”.

Já haviam passado 10 anos desde aquele fim de tarde junto ao mar. Uma despedida que todos sabiam ser provavelmente para sempre! Recordava o acenar triste e pouco convicto de Gabriel que, aos poucos e poucos, ia sendo apagado pela neblina branca que o mar ia depositando onda a onda sobre o areal. Ainda se lembrava de ver a batina negra do padre a aproximar-se do amigo, depois deste ter deixado de acenar, e foi aquela a última imagem que reteve na memória…

Muita coisa se passara entretanto…

Sensivelmente 6 meses depois daquela tarde, e vários quilómetros percorridos pelo litoral para fugir aos Abido, Romana dera à luz um rapagão!

A sombra acastanhada na pele não negava de quem ele era filho. Gabriel era pai sem o saber…

Contudo, o pequeno nascera órfão. Romana não sobrevivera ao parto. A demorada permanência entre os humanos fragilizara-lhe o organismo e, apesar dos esforços para se fortalecer, quando o momento chegou, não resistiu ao esforço por estar demasiado fraca. E ele viu-se, de repente, a braços com a aquela criatura desprotegida que sabia destinada a grandes feitos, como seu pai, ou talvez maiores.

Pensara em entregar a criança a Gabriel!

Queria estar liberto de obrigações para quando chegasse a altura de partir em busca da escória Abido. Queria estar disponível para, em conjunto com os seus pares, contribuir para a erradicação daquela raça maldita do universo, e assim repor a justiça milhares de anos após o ataque cobarde de que haviam sido alvo.

Mas quando os Cora vieram buscar a pirâmide, a fonte de poder e conhecimento que iria finalmente permitir acabar com os malditos Abido, o pequeno Elury, nome que lhe dera em homenagem ao seu distante avô, já o começara a chamar de pai. E isso mudava tudo!

Os seus pares partiram com a esperança do universo, dispostos a sacrificarem as suas vidas para decifrarem as verdades escondidas na pirâmide e com elas destruírem aqueles que há milénios procuravam destruir a humanidade. Ele ficou…

Jurou a si próprio que, quando Elury fosse mais velho, partiria para poder matar uns quantos Abido com a sua espada. Por isso esforçou-se para dar uma boa educação ao rapaz, ensinar-lhe a defender-se do mundo e dos outros, a caçar… Com apenas 8 anos, Elury já estava mais adaptado ao novo mundo do que o próprio pai quando tudo acontecera.

No entanto, o brilho que luzia no olhar do bebé Elury ao dizer pai não diminuíra com o passar dos anos, e um dia quando lhe perguntou porque é que o mundo era assim, tivera de contar-lhe tudo, e ao fazê-lo prometera a si próprio que iria tomar conta de Elury até ao dia em que ele pudesse partir em busca do seu destino.

Os Abido haviam chegado à Terra em 2029 e devastado a humanidade. Através da violência física chacinaram, contaminaram e transformaram um mundo tecnológico num mundo atrasado, rural e medieval, sem dispararem uma arma, sem destruírem um edifício. A contaminação da humanidade criara um largo espectro de novas espécies, uma das quais chegara a ameaçar os próprios Abido – os Asqhum – e, por isso, os Abido nunca mais regressaram à superfície da Terra. Uma vez mais, os Abido asseguraram-se que a humanidade enquanto humanidade poucas, ou nenhumas, hipóteses teria de sobrevivência e partiram.

Naquela época, há 2 anos atrás, e 8 anos após tudo aquilo, já existiam várias espécies derivadas dos humanos, e ainda haviam humanos em comunidades mais, ou menos, organizadas, mas os Asqhum dominavam a Terra.

E fora aquela constatação, aquela conclusão, de que a luta na Terra já pouco, ou nada, tinha que ver com os Abido que o fizera esquecê-los, deitar o coração ao largo acreditando que os seus pares dariam conta do recado, porque a sua obrigação para com o universo, a Terra, Gabriel e Romana, era garantir que Elury viveria para ser o grande homem que ele acreditava um dia vir a ser.

Hoje, Nolen sabia que os Abido haviam sido eliminados. Infelizmente a sua espada não matara nenhum, mas ficava orgulhoso ao lembrar que fora ele quem deitara mão à Pirâmide que permitira o seu extermínio e dera a possibilidade à humanidade de poder respirar descansada, nem que fosse apenas por algum tempo.

É que ali na Terra, estava tudo errado! Ali na Terra as sementes Abido haviam criado raízes e, se nada se fizesse, os filhos iriam continuar o trabalho dos pais mais tarde, ou mais cedo. O que acontecera na Terra fora exactamente o que acontecera à milhares de milhões de anos atrás depois da destruição do seu planeta natal, do primeiro, só que desta feita o universo sobreviveu, e o laboratório fora a própria natureza…

Elury olhava-o do lado de lá da fogueira com os seus olhos castanhos, traquinas, enquanto raspava com a colher o prato de papas de aveia que fora o jantar. O seu rosto era duro como o do pai, mas a expressão era serena como a de Romana…

Interessar-lhe-ia saber como era o mundo antes dos Abido?

Teria curiosidade em conhecer um mundo que, possivelmente, nunca mais voltaria?

Nolen desviou o olhar silencioso para o céu. Por entre as copas das árvores daquela densa floresta conseguia ver as estrelas e o azul plácido do firmamento.

A chuva fora decididamente embora! Calculava que estariam no mês de Junho, segundo o calendário humano, e o verão estaria a começar.

Depois da civilização parar a natureza retomara o seu rumo normal. Voltou a conquistar os espaços, e as árvores cresceram muito depressa em apenas 10 anos. Ainda bem que assim era, porque o homem precisava de esconderijos naquela nova Terra.

– Conta-me uma história pai!

– Queres que te conte uma história, Elury? – questiona sorrindo-lhe por detrás das labaredas esperando o meneio de cabeça de confirmação – Então, traz as tuas coisas, e vem deitar-te aqui perto de mim.

Elury obedeceu imediatamente.

O pai contava-lhe histórias bonitas!

Lembrava-se da história de Romana – a vampira – e de como ela ajudara os humanos a defender-se dos Asqhum.

Mas a preferida era a de Gabriel, o humano que se tornara muito poderoso – depois de ter sido ferido por um Abido – e usara esse poder para resgatar os sobreviventes da cidade e escaparem para um lugar seguro. A história era de Laura e Gabriel, mas ele não gostava muito de Laura…

– Laura e Gabriel ficaram juntos, pai? – perguntou de repente ao deitar a cabeça nas pernas de Nolen – Ficaram?

– Não sei Elury. – disse, reconhecendo que efectivamente não sabia; Laura queria o Gabriel, disso ele não tinha dúvidas – Querias que ficassem juntos?

– Não! – respondeu de pronto – Não gosto da Laura! É traiçoeira… Acho que se não tivesse mentido ao Gabriel, Gabriel poderia ter vencido os Abido!

Nolen respondeu-lhe com um sorriso. Era engraçado ver no filho as mesmas convicções do pai! Mas o pequeno Elury tinha razão: Laura era traiçoeira. Não conseguia evitar pensar no que teria acontecido se Romana tivesse confessado estar grávida de Gabriel: talvez Elury não existisse.

– Hoje vou contar-te uma história diferente… – disse afagando-lhe o denso cabelo – É uma história longa e antiga! Tens de ter muita atenção, porque é muito complexa…

– É passada onde? – perguntou levantando-se repentinamente.

– Em muitos lugares, Elury. – sorriu – Em sítios muito longe daqui! Tão longe, tão longe que alguns deles já não existem…

Elury deitou de novo a cabeça no colo de Nolen, pronto para se deixar levar para outros mundos através da voz do pai, como se voasse em cada palavra e nesse voo fosse enviado aos sítios para assistir com os próprios olhos ao desenrolar da história. O seu pai era um verdadeiro contador de histórias e eram histórias verdadeiras segundo lhe dizia.

O pequeno Elury fechou os olhos, e esperou a célebre frase por que começavam todas as histórias, mas o pai surpreendeu-o…

– Esta história é especial, Elury… – elucidou – Parte dela, o princípio, só o soube depois da Pirâmide ter sido descoberta… – sorri – Tenta não te esqueceres que nenhum dos intervenientes nesta história sabe desta primeira parte, senão não compreenderás.

O pequeno Elury assentou curioso ao pedido do pai e tornou a fechar os olhos à espera da desejada história:

Há muito tempo atrás…

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