O Nome do Vento

Já muitos comentaram O Nome do Vento, a obra de estreia do norte-americano Patrick Rothfuss. A avaliar pelas opiniões que li, a versão portuguesa garantiu o sucesso alcançado pela versão original, ao tornar-se num dos livros do género mais comentados e recomendados dos últimos tempos. Feitas as contas, junto-me ao coro dos elogios.

A história dispensa apresentações: o protagonista, Kvothe, começa como uma criança curiosa e perspicaz num mundo de hábitos medievais, magia, monstros e malfeitores, antigas lendas e uma universidade especial. Apesar do universo cativante, é ele o elemento central desta história narrada, essencialmente, em primeira pessoa. Mais do que em outras obras, em O Nome do Vento tudo gira em torno do protagonista, das suas decisões e dos seus actos. Este é, na verdade, o relato da vida de um jovem inteligente, presunçoso, corajoso e determinado, em suma, de um herói.

Ainda assim, logo nas primeiras páginas do livro desapontei-me, pois algumas das expressões e metáforas utilizadas pelo autor pareceram-me mal conseguidas e pouco significantes. No entanto, embora as opções de estilo e sintaxe do autor nem sempre me tenham parecido as melhores, qualquer um desses pormenores foi suprimido pela qualidade e criatividade do enredo.

A criança que viaja pelo prolífero mundo de Patrick Rothfuss cresce e supera os obstáculos, tornando-se no jovem que luta diariamente para sobreviver e se afirmar numa sociedade marcada por desigualdades sociais. Mas, contrariamente a outros heróis do género, Kvothe é uma personagem incrivelmente solitária, mesmo não estando só, e é isso que o destaca e me impressionou. Para além disso, o autor não poupa o leitor e, sem chocar, consegue apresentar um universo negro e maléfico, ao mesmo tempo que suscita grande empatia com o protagonista. Existem outras personagens deveras cativantes mas pouco exploradas, uma lacuna que é preenchida pela complexidade do protagonista, no qual se centra toda a acção.

O modo detalhado e envolvente como a história é contada, associado às múltiplas peripécias nas quais Kvothe se vê envolvido, faz deste um livro original, criativo e, o mais importante, muito cativante. Contudo, não posso deixar de salientar uma certa morosidade na evolução dos acontecimentos. Embora a leitura não seja monótona ou aborrecida, há excertos que pouco ou nada acrescentam à história, e poderiam mesmo ser resumidos.

No fundo, este é um excelente início da trilogia e da carreira do autor. O facto de a história ser narrada em analepse (e na primeira pessoa, claro) confere um tom realista à obra, e permite, também, antever alguns acontecimentos dos próximos volumes. Mas as questões são muitas e a curiosidade imensa, pelo que não me resta outra solução a não ser esperar pelo próximo livro.

Não é história perfeita, mas é muito mais do que uma simples história sobre um jovem que quer aprender magia e lutar contra o mal. É o relato de um estranho estalajadeiro que se tornou lenda, um relato vivo e entusiasmante que se impõe como referência criativa.

Tradução: Renato Carreira

Edição: Gailivro, 2009

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