[Opinião] Bang! 8

 

Depois de algumas mudanças ao longo do percurso da revista, a Bang! (agora gratuita) regressa em força, com uma tiragem de 8500 exemplares, distribuição nas Fnac, um visual bem apelativo e, principalmente, conteúdos interessantes. Nos últimos dias, tive a oportunidade de ler a revista do início ao fim e, tanto em termos visuais como de conteúdo, o resultado desta nova mudança parece-me ter sido claramente positivo. Mas vamos por partes.
Depois de uma interessante introdução ao percurso não só da revista, mas também da própria colecção Bang! (apresentado no editorial), uma breve apresentação do trabalho de Alejandro Dini (autor da capa), e de uma breve apresentação das novidades da colecção, despertando a curiosidade dos leitores, surge a primeira peça de ficção. O conto é M., de Malária, de José Eduardo Agualusa, e trata-se fundamentalmente da história de um taxista que se torna médico e que, ao receber no consultório um paciente invulgar, acaba por tomar conhecimento da existência de indivíduos… intrigantes. Uma ideia interessante, com uma visão bastante diferente no que a vampiros diz respeito, mas onde faltou aquele factor emotivo capaz de criar laços com o leitor.
Segue-se o artigo A (minha) história de Duna, onde Jorge Candeias, tradutor da obra, conta, de forma descontraída e interessante a sua relação por vezes conflituosa com o livro. Sendo Duna um dos melhores livros que me passou pelas mãos este ano, achei particularmente interessante a forma como as grandes qualidades do livro são apresentadas, mesmo por alguém que, ao que parece, não gostou assim tanto do livro.
Um dos contos que mais expectativas despertou em mim (e que não desiludiu) foi Com a manhã chega a neblina, de George R.R. Martin. Trata-se, essencialmente, de um conto sobre o derrubar de um mito e sobre as mudanças que o conhecimento pode (ou não) trazer. Uma história toda ela muito interessante, mas que marca particularmente pela forma como questiona algumas atitudes de racionalização excessiva, na necessidade quase incontrolável de explicar todos os mistérios.
Segue-se um pequeno texto em que Afonso Cruz fala dos livros que o marcaram. Desperta, de facto, o interesse para Flatland, o livro referido ao longo de quase todo o texto, ainda que deixe a sensação de que poderia ter-se alongado um pouco mais sobre os restantes títulos. Também a secção Távola Redonda, onde vários autores falam das suas experiências de publicação surge como uma ideia muitíssimo interessante e esclarecedora, ainda que pudesse ter sido mais amplamente explorada, dando mais voz aos autores ou até reunindo mais pontos de vista.
A Boa Gente de Sodoma, de Matthew Rossi, pequena e peculiar reflexão sobre os mecanismos das viagens no tempo, é também um texto muito interessante e que levanta várias questões, ainda que, inicialmente, seja ligeiramente confuso.
Segue-se o artigo mais longo (e também o mais completo) da revista. Em Os mundos imaginários do fantástico português (1ª parte), António de Macedo traça um percurso claro e detalhado para o fantástico de língua portuguesa, deixando no ar o interesse para a parte em falta. E se este foi, para mim, o artigo mais interessante da revista, o conto que se segue foi também o que mais me cativou na parte da ficção. Os cascos e o casebre de Abdel Jameela, da autoria de Saladin Ahmed, conta a história de um físico caído em desgraça e de um invulgar eremita, e de como o encontro de ambos revela poderes ocultos, ajudas necessárias e uma recompensa para lá da imaginação. Envolvente, com uma escrita muitíssimo interessante e fascinante do início ao fim, um conto muito, muito bom.
Legolas:rói-te de inveja é um título bastante interessante para o texto em que R.A. Salvatore nos fala de Drizzt e de como este se tornou na mais conhecida das suas personagens. Trata-se de um texto bastante breve onde, além do despertar da curiosidade para a obra do autor, o que mais me chamou a atenção foi a relação que este tem com as suas personagens.
Mais um conto, desta vez de Inês Botelho. Felicidade fala sobre as possíveis associações entre regras de alimentação e medidas de uma felicidade quase obrigatória. Interessante e muito bem escrito, ainda que não me tenha cativado, revela uma interessante visão crítica da sociedade.
A este conto seguem-se mais dois artigos. O primeiro, Nova vaga, novas capas, de Pedro Piedade Marques, fala de uma fase em que as capas de ficção científica não denunciavam à partida o género em que se incluíam, num texto que propicia à reflexão sobre se será possível não julgar o livro (e o leitor) pela capa. O seguinte,Fantasia urbana ou romance paranormal?, de Safaa Dib, apresenta uma clara definição deste sub-géneros em ascensão, apoiada com exemplos de séries já bem conhecidas entre nós.
De As Cidades do Segundo Esquerdo, de Afonso Cruz, um breve conto sobre uma substância chamada Discórdia, fica-me a impressão de uma ideia muito interessante, mas que, na sua excessiva brevidade, não me conseguiu cativar por completo.
A aproximar-se o fim da revista, segue-se uma secção de críticas. A escolha dos títulos é interessante e relativamente variada, mas fica a sensação de que há pouco de opinião e demasiado de síntese dos livros, revelando-se, por vezes, demasiado do enredo. Há ainda um artigo de João Miguel Lameiras sobre a BD The Walking Dead, que, mais uma vez, desperta bastante curiosidade, mas revela demasiado sobre alguns aspectos do enredo.
E, para terminar, fica uma sugestão da Fnac, que não posso deixar de subscrever, sendo Anne Bishop a minha autora favorita (ainda assim, a pequena revelação do fim do texto talvez diga demasiado) e uma breve síntese das novidades literárias que surgirão no próximo trimestre, que promete muito de bom.
Balanço final: como não poderia deixar de ser, numa revista com conteúdos tão diversos, houve elementos que me cativaram por completo, e outros que nem tanto. Terminada a leitura, contudo, não há dúvidas de que o resultado final é muito positivo e que esta nova encarnação da revista Bang! tem muito para ser um sucesso. Resta esperar que assim seja e que o próximo número seja ainda melhor.

 

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