Primeiras páginas de “Especiais” de Scott Westerfeld

 Em colaboração com a Vogais, publicamos algumas das primeiras páginas do livro “ESPECIAIS” de Scott Westerfeld. Para mais informações e passatempos visitem a página do Facebook aqui.

A Paginação é a possível através de um post no wordpress, não é a paginação final, nem é da responsabilidade da Vogais.

As seis aeropranchas deslizavam por entre as árvores de forma graciosa e à velocidade de um raio, como num jogo de cartas, lançadas rasantes e em rodopio. Os condutores mergulhavam e acenavam por entre os ramos carregados de gelo, rindo, com os joelhos fletidos e os braços estendidos. No seu rasto brilhava uma chuva de cristal, pequenos pedaços de gelo sacudidos das agulhas dos pinheiros que caíam à sua passagem, inflamados pela luz do luar.

Tally sentia tudo com uma clareza glacial: o vento frágil e gelado de encontro às suas mãos expostas, as alterações de gravidade que pressionavam os seus pés contra a aeroprancha. Ela respirava a floresta, gavinhas de pinheiro envolviam a sua garganta e língua, espessas como um xarope.

O ar frio parecia tornar os sons mais acutilantes: a ponta solta do seu casaco da equipa do dormitório estalava como uma bandeira alçada ao vento, os seus sapatos aderentes guinchavam a cada volta contra a superfície da aeroprancha. Fausto bombeava dance music diretamente através da sua antena dérmica, silenciosa para o mundo exterior.

Ao seu ritmo frenético, Tally ouvia cada movimento dos seus novos músculos revestidos de monofilamentos.

Semicerrava os olhos contra o frio, lacrimejando, mas as lágrimas tornavam a sua visão ainda mais aguçada. Os pingentes de gelo caíam agitados em gotas brilhantes e o luar cobria o mundo de prata, tal como um filme velho a preto e branco que ganhava vida de forma tremida.

Era isto que significava ser um Cortador: tudo agora era cortante,como se o mundo abrisse a sua pele.

Shay precipitou -se rapidamente para o lado de Tally, os dedos deambas tocaram -se por um instante, e ela esboçou um sorriso. Tally tentou retribuir, mas algo revolveu o seu estômago quando olhou para a cara de Shay. Naquela noite, os cinco Cortadores estavam disfarçados. As íris pretas estavam escondidas sob lentes de contacto baças, os maxilares bonitos e duros suavizados por engenhosas máscaras de plástico. Tinham -se transformado em Imperfeitos porque iriam a uma festa no Parque Cleópatra sem terem sido convidados.

Para o cérebro de Tally era demasiado cedo para andar a brincar aos disfarces. Só se tinha tornado Especial há poucos meses, mas, quando olhou para Shay, estava à espera de ver a nova e maravilhosa beleza cruel da sua melhor amiga e não a máscara imperfeita que usava naquela noite.

Tally mudou o ângulo da sua prancha para o lado, para evitar um ramo coberto de gelo, interrompendo o contacto. Concentrou -se no mundo cintilante e em contorcer o seu corpo para fazer deslizar a prancha por entre as árvores. A golfada de ar frio ajudou -a a concentrar -se novamente nas coisas à sua volta e não naquele sentimento de vazio dentro de si – aquele que vinha do facto de Zane não estar ali com todos eles.

– Festa de Imperfeitos, aqui vamos nós…

As palavras sussurrantes e próximas de Shay entrecortaram a música, captadas por um chip no seu maxilar e transmitidas através da rede da antena dérmica.

– Tens a certeza de que estás preparada para isto, Tally -wa?

Tally respirou fundo, embebendo o frio que desanuviava o seu cérebro. Ainda tremia, nervosa, mas não fazia qualquer sentido recuar agora.

– Não te preocupes, Chefe. Isto vai ser divertido.

– E deverá ser. Afinal de contas, isto é uma festa – disse Shay. –

Vamos lá ser um bando de Imperfeitos felizes. Alguns dos Cortadores riram -se entredentes, trocando olhares através das suas máscaras. Tally apercebeu -se novamente da sua própria máscara de espessura milimétrica: inchaços e protuberâncias de plástico tornavam a sua cara defeituosa e com borbulhas, tapando a lindíssima e intrincada teia de tatuagens animadas. Uma dentadura assimétrica nivelava os seus dentes extremamente afiados e até mesmo as suas mãos tatuadas tinham sido disfarçadas com um spray de pele falsa.

Uma olhadela ao espelho tinha mostrado a Tally como estava: tal e qual uma Imperfeita. Deselegante, com um nariz curvado e as bochechas gordas de um bebé e uma expressão impaciente – ansiosa pelo seu próximo aniversário, pela operação borbulhante e pela travessia do rio. Por outras palavras, uma rapariga de 15 anos como outra qualquer.

Esta era a sua primeira proeza desde que se tornara Especial. Agora, esperava estar pronta para qualquer circunstância – todas aquelas operações tinham -lhe dado novos músculos implacáveis e reflexos ajustados à velocidade de uma cobra. E depois tinha treinado durante dois meses no campo dos Cortadores, vivendo na floresta, dormindo pouco e sem provisões.

Mas um olhar ao espelho tinha abalado a sua confiança.

O facto de terem vindo à cidade através dos subúrbios de Ancianópolis, sobrevoando as filas intermináveis de casas sombrias e todas iguais, não estava a ajudar. O tédio casual do lugar no qual tinha crescido causava-lhe uma sensação pegajosa ao longo do interior dos seus braços, e sentir o casaco do dormitório reciclável em contacto com a sua nova pele sensível ainda tornava tudo pior. As árvores bem cuidadas da cintura verde à volta da cidade pareciam fazer pressão à volta de Tally, como se a cidade a tentasse reduzir novamente à mediocridade.

Ela gostava de ser Especial, estar no Exterior, ser implacável e melhor, e estava desejosa por voltar à floresta e tirar aquela máscara de Imperfeita da cara.

Tally cerrou os punhos e ouviu a rede da antena dérmica. A música de Fausto e os ruídos dos outros tomaram conta dela – os sons suaves da respiração, o vento de encontro às suas caras. Imaginou os seus batimentos cardíacos no último limite da audição, como se o crescente entusiasmo dos Cortadores ecoasse nos seus ossos.

– Separem -se – disse Shay, à medida que as luzes da festa se aproximavam.

– Não quero que nos pareçamos com uma tribo.

O grupo de Cortadores separou -se. Tally ficou com Fausto e com Shay, enquanto Tachs e Ho partiram em direção ao topo do Parque Cleópatra. Fausto ajustou a sua aparelhagem e a música diminuiu de intensidade, deixando apenas o som do vento e o rumor distante da festa.

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4 respostas a Primeiras páginas de “Especiais” de Scott Westerfeld

  1. Paulo Santos diz:

    Parece que o livro tem uma paginação muito…. criativa. Impossível de ler, é passar à frente. Que desperdício.

  2. Amo a série Feios. Baixei Especiais e Extras ainda em Inglês pq não aguentei esperar a versão traduzida.
    é totalmente empolgante.Espero que a série por ter sido sucesso vire filme.

  3. Amanda *-* diz:

    simplesmente magnifico .

  4. ana diz:

    incrivel,eu amo a serie,conheci por uma amiga e nao consegui mas largar…!

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