“ARVIES” NA DAGON!

PRIMEIRAS LINHAS DE “ARVIES”, CONTO DE ABERTURA DO PRÓXIMO NÚMERO DA REVISTA DAGON. UM CONTO DE ADAM-TROY CASTRO QUE TEM IMPRESSIONADO A CRÍTICA . PUBLICADO  NA REVISTA DIGITAL “LIGHTSPEED” EM AGOSTO DE 2010.

Arvies[1]

Adam-Troy Castro

 

Declaração de intenções

 

Esta é a história de uma mãe, uma filha e do direito à vida e á dignidade de todos os seres vivos, de algumas almas às quais são atribuídos grandes destinos aquando da sua concepção e de alguns amaldiçoados a manterem-se no papel dos idiotas úteis da sociedade. 

Conteúdo 

Contem com adoráveis animais de peluche, fluído amniótico e um final mais ou menos feliz para toda a gente, embora a definição de felicidade possa depender da truncada capacidade emocional daqueles que não conseguem sentir mais nada além disso. Algumas das personagens são ricas e famosas, outras menores de idade e uma encontra-se legalmente morta, embora provavelmente vá ser aquela de que gostam mais. 

Apresentação

Encontramos Molly June pela primeira vez aquando do seu décimo quinto “óbiteversário”, quando os monitores incumbidos para tal decidiram que estava segura para levar passageiros. Congratulando-a pela concretização do único estágio importante do seu desenvolvimento, enviaram-na numa escumadeira para a sala de exposição arvie onde foi, de imediato, requerida por um dos Vivos.

A rápida venda não surpreendeu ninguém, nem os servos que a treinaram até ao actual estado de beleza e atracção, nem as IA de serviço à monitorização da sala e, ainda menos, à Molly June, que tinha passado a sua infância e adolescência com a habilidade de sentir surpresa, ou o quer que fosse mais que um vago contentamento, despojada do seu palato emocional. Chorar, aprendeu quando era ainda capaz de tal coisa, dava azo a castigo, a incondicional aceitação de tudo o que os engenheiros achassem apropriado dava origem a luz, calor e cheiro a flores. Nesta altura na sua existência aceitava de bom grado tudo até à explosão de uma bomba sem qualquer reacção mais profunda que uma vaga preocupação. A Por comparação, a sua venda foi um pormenor insignificante: um feliz desenvolvimento, um reforço para a sua sensação de entorpecida satisfação. Não tenham pena dela. Toda a sua vida, ou mais concretamente a sua morte, é um final feliz. Tudo o que tem que fazer é passar o resto dela a carregar um passageiro.

Especificações do veículo

Julga precisar de saber qual o aspecto da Molly June. Na verdade não precisa, uma vez que este não desempenha qualquer papel na sua vida. Mas se tal informação o auxiliar na sua empatia por ela, fazemos-lhe esse favor.

Molly June é um rosto redondo, um nariz em forma de botão, com lábios cor-de-rosa e bochechas marcadas por um rosa permanente: o seu cabelo louro emoldura o seu rosto perfeito num parêntesis formado pelos seus elásticos e luxuriantes caracóis. Os seus olhos azuis, aumentados graças a anos de manipulação genética e de cirurgias correctoras, são três vezes o tamanho dos olhos imperfeitos que a natureza lhe teria colocado no rosto. Semelhantes aos de um lémure, sobressaíam dos seus traços como um par de serenas jóias, húmidas, tristes e adoráveis. Não revelam nada acerca da sua personalidade essencial, o que não é uma grande perda, uma vez que nunca lhe foi permitido desenvolver uma.

O seu corpo é outro assunto. Foi treinado até à perfeição, com o género de punitivo regime diário que só pode ser suportado quando a própria mente se mantém desapercebida da dor e da exaustão. Lidou com ligamentos rasgados, articulações quebradas e feridas desfigurantes. Foi-lhe decepada a coluna, foi-lhe esmagado o crânio e ambos foram substituídos pelos seus engenheiros, com a mesma facilidade, catorze vezes, a sua pele foi substituída por uma versão mais recente sem quaisquer marcas de cicatrizes ou manchas. O que dela permanece agora não passa de uma pálida amalgama das suas partes mais bem desenvolvidas, a maior parte delas totalmente naturais, com excepção do seu útero que é, claro está, um palácio de pelúcia cheio de ligações, muito mais seguro para o futuro ocupante do que o anterior mero invólucro de carne seria. Consegue aguentar feridas capazes de reduzir Molly June a um borrão.

Resumindo, é precisamente aquilo que era suposto ser, passados 15 anos do seu nascimento, como tal está, segundo todos os padrões da moderna sociedade civilizada, Morta.

(…)

Adam-Troy Castro tem publicadas dezassete obras, entre elas Emissaries from the Dead (vencedor do galardão Philip K. Dick). A sua ficção curta foi nomeada para cinco Nébulas, dois Hugos e dois Stokers.


[1]  Publicado pela primeira vez na Lightspeed, Agosto de 2010.

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