NOVIDADES DA NOVA DAGON / CONTO FANTÁSTICO

PRIMEIRAS LINHAS DE UM ARTIGO DE STANISLAW LEM SOBRE A OBRA DE P. K. DICK, COM 9000 PALAVRAS NO TOTAL.

UM  DOS ARTIGOS A SER PUBLICADOS NA DAGON / CF Nº2!

Philip K. Dick: Um Visionário entre os Charlatães

Stanislaw Lem 

Traduzido de polaco para inglês por Robert Abernathy

Traduzido para português por Ana Cristino

 (a quem deixamos um enorme obrigado)

 

Ninguém, no seu perfeito juízo, procura a verdade psicológica acerca do crime nas histórias policiais. Quem quer que procure essa verdade deveria antes ler o Crime e Castigo. Comparado com Agatha Christie, Dostoievsky constitui um tribunal de recurso superior, e no entanto ninguém no seu perfeito juízo condenará as histórias da autora inglesa a este respeito. Têm o direito a ser tratados como os thrillers de entretenimento que são, e as tarefas que Dostoievsky impõe a si mesmo são-lhes estranhas.

Se alguém não está satisfeito com a FC no seu papel de investigador do futuro e da civilização, não há como fazer um movimento análogo desde as simplificações literárias exageradas até uma arte capaz de voar, pois não existe um tribunal de recurso para este género. Daqui não adviria qualquer mal, à excepção de que a FC americana, explorando o seu status de excepção, alega ocupar os pináculos da arte e do pensamento. Incomoda-nos o pretensiosismo de um género que se esquiva das acusações de primitivismo, alegando o seu carácter de entretenimento e depois, mal as acusações sejam silenciadas, renova as suas reclamações presunçosas. Sendo uma coisa e simulando ser outra, a FC promove uma mistificação que, além disso, se perpetua com o consentimento tácito dos leitores e do público. O desenvolvimento no interesse pela FC nas Universidades americanas, contrariamente ao que seria expectável, não tem contribuído em nada para alterar este estado de coisas. Deve dizer-se, com toda a franqueza, embora correndo o risco de perpetrar um crime laesae almae matris, que os métodos críticos dos teorizadores da literatura são inadequados perante as tácticas enganadoras da FC. Mas não é difícil compreender a razão deste paradoxo: se as únicas obras de ficção sobre o problema do crime fossem as do tipo de Agatha Christie, então a que tipo de livros até o mais douto dos críticos recorreria para demonstrar a pobreza intelectual e a mediocridade artística do thriller detectivesco? Normas de qualidade e limites elevados são estabelecidos na literatura por obras concretas e não pelos postulados dos críticos. Nem uma montanha de lucubrações teóricas pode compensar a ausência de uma obra de ficção excepcional como um modelo elevado. A crítica dos peritos em historiografia não conseguiu enfraquecer o estatuto da Trilogia de Sienkiewicz, porque não existiu um Leo Tolstoy polaco para consagrar uma Guerra e Paz ao período das guerras entre cossacos e suecos. Em resumo, inter caecos luscus rex – onde nada há de primeira qualidade, o seu lugar será ocupado pela mediocridade, que institui para si objectivos fáceis e os atinge por fáceis meios.

 (…) 

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