Opinião: ‘Batalha’ de David Soares

Batalha
David Soares

Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!

Sinopse: Em Batalha, David Soares apresenta uma história em que os animais são protagonistas. Passado no início do século XV, Batalha é um romance sombrio, filosófico e comovente, que observa o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais e especula sobre o que significa ser-se humano.
Batalha, a ratazana, procura por sentido, numa viagem arrojada que a levará até ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, o derradeiro projecto do mestre arquitecto Afonso Domingues. Entre o romance fantástico e a alegoria hermética, Batalha cruza, com sensibilidade e sofisticação, o encantamento das fábulas com o estilo negro do autor.

Opinião: Batalha é, sem dúvida, uma excelente obra literária. Provavelmente das melhores que já li. A minha estreia com David Soares foi através do seu livro de contos ‘Os ossos do arco-íris’, tornando Batalha no primeiro romance que leio do autor.

A obra começa em jeito de fábula, em que um casal de ratos encontra uma cria mal cheirosa abandonada. Decidem então adoptar este pequeno rato que mais parece cocó. Mas rapidamente Batalha, o pequeno rato mal cheiroso, dá conta que é diferente do resto da sua família. Cresce muito mais depressa, tem mais capacidades e muito cedo a lei do mais forte tem que ser aplicada, quando vê a sua família ameaçada por um conjunto de gatos. Quando ele prevalece, a família abandona-o com medo dele, mesmo depois deste os ter protegido.

O autor surpreende-nos com uma sensibilidade que, da minha parte, ainda não lhe era conhecida. Através de Batalha, vivemos os dilemas religiosos humanos, a procura por um sentido ou apenas a confirmação lógica de que o que existe é o que vemos e o que não vemos não é real. Estas duas sentenças marcaram bastante a obra:

“Até hoje, ainda não vi nada com o coração. O meu coração é cego.”

“Porque quando a morte chega, nós já não existimos. A morte não nos pode fazer mal nenhum.”

Porque afinal, o que é que é ver com o coração? Porque é que se tem tanto medo da morte? Batalha é sem dúvida o exemplo do que um ser racional, na sua irracionalidade, pensa sobre a vida e a religião. No entanto, até Batalha acaba por tentar encontrar algum significado para a sua existência e explora um mosteiro cheio de humanos. Lá, encontra o seu arquitecto, cego, sentado debaixo da cúpula, a cumprir a sua promessa de lá ficar três dias. O diálogo entre Batalha e Afonso Domingos é surpreendente, por vezes comovente, mas acaba de uma forma romanticamente trágica.

Oscilando entre uma sensibilidade comovente e uma crueldade aterradora, David Soares presenteou-nos com uma excelente obra, ao seu estilo gótico, com um vocabulário requintado (por vezes exageradamente requintado) e que nos enche as medidas. Gostei bastante e abriu-me o apetite para ler mais obras do autor.

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