VOLLÜSPA – Vinheta de José Manuel Morais

Tenham cuidado com a Vollüspa, tenham cuidado com os livros proibidos!

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José Manuel Morais

O Cardeal Inquisidor esfregou os olhos, cansados por horas de leitura nocturna. Tinha começado pouco depois da hora de Vésperas, e agora a de Laudes não devia estar longe, a julgar pelas velas quase mortas no candelabro. Mas não podia parar.  O Papa exigia que o Índex Librorum Prohibitorum ficasse pronto, e de Trento exigiam exemplares antes que o concílio debandasse. Nessa manhã a lista completa dos livros interditos aos católicos devia dar entrada na gráfica, mas havia sempre livros a chegar e a ler, pois a inventiva dos inimigos da fé parecia não ter limites. Toda a noite examinara um lote chegado de Portugal, enviado pelo irmão do rei, também Cardeal e Inquisidor, sempre zeloso e vigilante em questões de ortodoxia. Nenhum dos livros trazia nada de novo, inquietante ou perigoso que justificasse sobrecarregar o Índex, mas todos tinham de ser lidos. E agora, graças a Deus, ali estava o último, mais um livro em língua vulgar, que segundo a nota que o acompanhava tinha sido apreendido a um certo Roberto Mendes, que subitamente tinha aparecido em Évora, e não menos subitamente desaparecido nas enxovias da Inquisição, denunciado por um familiar do Santo Ofício, que desconfiara do inusitado das suas vestes  e do seu linguajar estranho.

O livro era também pouco usual, feito de um papel fino, liso e leve como nem em Veneza se usava, e a encadernação era também diferente  de tudo o que já tinha visto. A capa tinha muitas cores, o que nunca é bom porque ofende a modéstia. Por dentro era pior. Do tempo que passara como núncio em Lisboa, o Cardeal Inquisidor guardava o conhecimento bastante da língua para ver que o livro falava de máquinas loucas, judeus, sonhos maléficos, criaturas da noite, lugares que não existiam e outros que só poderiam existir nos mundos imaginados por aquele Copernicus que a Igreja procurava sem êxito silenciar.

Fechou o livro e olhou de novo a capa. Agora até o título parecia suspeito. Puxou para si o manuscrito do Índex pronto a enviar, e na letra V intercalou entre Vitus Vuinfemius e Vuendolinus ab Helbach o novo livro que nunca deveria chegar às mãos de nenhum bom católico: VOLLÜSPA, Antologia de Contos de Literatura Fantástica.

Chamou o criado que esperava na antecâmara.

– Isto é para levar imediatamente à Officina Salviana, para Impressão. E isto, acrescentou enquanto selava com lacre vermelho as páginas do livro e lhe apunha o sinete do anel, é para o Arquivo Secreto. Guardar sem abrir, Deus seja louvado.

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2 respostas a VOLLÜSPA – Vinheta de José Manuel Morais

  1. Pelos visto alguém na cadeia de comando “drop the ball”… lol

  2. Ups… Foi alguém viajar no tempo!

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