A última viagem – Um conto…

Aqui vai a primeira parte de um conto da minha autoria. Foi “construído” como um desafio, um exercício literário. “E se eu experimentasse escrever terror psicológico”: esta foi a frase que me acordou e que comigo adormeceu durante vários dias. Aqui vai o resultado; Gostaria de saber as opiniões, tanto as positivas como as negativas, de quem tiver o interesse de ler estas palavras:

Abrem-se portas de ouro, fulminantes de fulgor. Na esfera do invisível voa o espírito da morte libertadora, um vento forte sopra rompendo a noite que se abatera sobre o mundo, lua de tormentos defuntos, noite sem fim, mas não para mim! Os seus olhos fulminam-me num patético pedido de piedade, não vêm que em mim não vive a bondade. E é assim que os seus olhos percebem o que sou, um espectro dos meus próprios pensamentos, um fantasma de mim mesmo: a morte de olhar faminto que, de pé, o olhava pedinte! E na noite retorcida de tormentos os seus olhos odiaram-me, dementes, até que o som fulminou o silêncio e o seu sangue jorrou, conspurcando-me de um doce cheiro almiscarado do prazer inalterado com que o vi na morte prostrado.

Desço as ruas da cidade, deixando o corpo para trás. Aqui o cheiro da noite sempre fora diferente de qualquer outro. As janelas altas escondem abutres execráveis que não a ousam enfrentar: a noite! Não é muito escura a rua que me fará sair deste bairro nojento, ouço a minha voz praguejar contra os candeeiros que ousam iluminar a escuridão e faço um movimento automático, procurando a arma de que me havia despojado, deixando-a repousar com ele, a minha centésima vítima. Nunca percebi porque os contava, e por mais que pensasse sobre isso nenhuma explicação me ocorria. Certo dia havia lido em algum lugar um verso que nunca me saíra da cabeça: “quando matares cem corvos, arrancando a vida às suas asas destroçadas, surgirão soluços de raiva incandescente e cem gargalhadas de cem vidas despedaçadas te acompanharão na última viagem, rindo de ti”. Que raiva, serei assim tão estúpido? Ao ponto de temer um simples verso…

Estou agora perto do meu destino, anseio por me infiltrar no submundo que se esconde no metro. Ali, debaixo da terra, onde nem a lua me ilumina, é onde me sinto melhor. Quero entrar nos túneis negros e não mais sair, labirinto diabólico que acalma a minha alma. São já duas da manhã. No metro certamente que encontrarei as minhas almas gémeas, noctívagos silenciosos e solitários, que se misturam com a monotonia do negrume cortado pelas portas que abrem e fecham sem levarem a lado nenhum. Apesar de solitárias são muitas as almas penadas que viajam de noite, procurando o seu destino. Mas nunca como hoje ansiara a ausência dos meus pares, para me poder perder na completa solidão.

Ah…avisto a sua entrada, de perfeição imaculada! Dou por mim a correr para ela e logo abrando o passo, não quero deixar que os meus impulsos me controlem. Tremo de suores frios, o meu coração parece querer rebentar. Mas que raio se passa comigo esta noite? Sou ávido a entrar. À medida que desço os sujos degraus vou-me sentindo mais calmo, qual presa que sente escapar do seu predador. Paro em frente da maldita máquina que me veda momentaneamente o acesso. Sinto uma picada nos olhos enquanto aquele pedaço de hardware me analisa, deixando-me depois entrar lançando o meu nome ao ar naquela voz inumana a que chamaram um dia progresso…bah…o progresso chegou na forma de controlo, o big brother derradeiro, perfeito. Mas a estação era antiga, oh, uma das primeiras, construída séculos e séculos antes de ter o prazer de a respirar. Ao alcançar o último degrau deparo-me com o impensável. A estação, sempre fervilhante de actividade, aparecia-me agora deserta, com as suas sete linhas velando pelo incrível marasmo que consumia o subsolo. O enorme relógio amarelo marcava as horas. Dou por mim a olhá-lo fixamente, como sempre faço, apesar de não perceber os números que o adornam…”são romanos” ouço o meu pai dizer e sinto-me de novo com oito anos, segurando a sua mão enquanto a construção desta estação me maravilhava pela primeira vez. Entro, apreciando o silêncio. É a primeira vez que vejo qualquer estação completamente vazia e isso fascina-me. É como se tivesse entrado para um mundo diferente, distante, antigo, soberbo! Sento-me e descontraio. Sinto-me num mundo só meu, onde posso repousar. Ouço ao longe o aproximar do comboio, se ao menos estivesse também vazio. Levanto-me e espero. O gigantesco comboio chega em velocidade pairando sobre os carris. Pára. É um dos modelos mais recentes e a forma como contrasta com o ambiente da estação é quase malévola, qual ferida mortal num corpo jovem e são. Entro, para meu espanto a carruagem está vazia. Olho pela última vez a estação e espero que a porta feche. Ouço um grito que ressoa no vazio, fazendo-me tremer. É um grito de mulher, desesperado, miserável… oh como conheço este grito, mas não pode ser… tento olhar para fora do comboio mas a porta fecha, cortando o som do grito que tantas vezes me havia despertado do sono. Assustado olho em volta, respirando pesadamente, tentando acalmar-me. Estou sozinho…sento-me e encosto a cabeça no vidro, fecho os olhos.

Lá fora uma tempestade brindava o mundo, os trovões faziam-se ouvir, logo iluminados por relâmpagos que se abatiam sobre a noite e que entravam pela janela mostrando espasmodicamente o seu corpo: deitado de costas na velha cama do meu pai. Sentia o sangue escorrer, caindo do nariz; Todo o meu corpo doía, latejando em gritos mudos que reclamavam dos seus mais recentes golpes, daquele que tinha tomado o lugar do meu pai e que matara a minha mãe…o machado que segurava abate-se sobre o seu crânio separando-o em dois bocados afogados no sangue negro e viscoso que irrompeu do golpe…novo relâmpago e a arma do crime fica cravada na sua cabeça, qual assinatura…

Ouço o som do relâmpago e vejo o machado na sua curva descendente…abro os olhos e grito de susto, não estou sozinho… um homem gordo está sentado num banco a três filas do meu, de costas para mim…como é que eu não o vi antes? Estamos perto da próxima estação. Pelo que consigo ver deve ser um homem na casa dos cinquenta anos, usa um casaco antiquado com padrões verde e bege. Na cabeça usa um chapéu que cobre o que parece ser um antigo lenço manchado de vermelho…consigo ver que segura algo, parece um cabo vermelho de algum objecto que leva ao colo. Curioso, caminho até ele, não parece ser do tipo de pessoas que frequentam o metro a estas horas…talvez tenha algo valioso que eu possa roubar. Coloco a mão direita no bolso das calças onde guardo uma pequena navalha. Sento-me no banco à sua frente e olho-o nos olhos, ou pelo menos tento…usa um tipo de lenço que não via há muito tempo. Cobre-lhe todo o rosto, deixando apenas um pequeno buraco onde se distinguia um olho azul profundo, cansado. O lenço parece ensanguentado; Decido recuar, talvez o tivesse subestimado, além disso segura o que parece ser um pequeno machado. Levanto-me…

– Não, fica! – O meu coração pára momentaneamente. Aquela voz… e a frase que tinha sido proferida. Não era um pedido: era uma ordem.

– Quem és? E a quem pensas que estás a dar ordens? – Ouço-me responder, tentando imprimir na voz a confiança que não sinto.

– Ah, Ah, Ah…não precisas que te diga quem sou…não, tu não precisas mesmo. Olha-me e diz-me que não me reconheces – As suas grandes mãos largam o machado e retiram o chapéu…num ápice o lenço é removido e eu olho-o: o seu crânio deformado, dividido, adornado apenas por um olho e metade do nariz e boca, o sangue a jorrar de um golpe colossal que tinha desfeito o rosto da minha primeira vítima!

“A próxima estação”, grita o meu cérebro enquanto retiro e empunho a navalha.

– Vejo que te fartastes das lâminas grandes – sorri venenosamente;

– Mas como…? E o que queres? – Tremo incessantemente enquanto tento recuperar o equilíbrio mental, tem de ser uma ilusão.

– Hum…vejamos. Penso que talvez queira apenas perguntar-te porquê?

– Mataste a minha mãe seu porco nojento…ainda perguntas porquê?

– Não matei a tua mãe, ela morreu com uma overdose miúdo… – E olhando-me com o seu grande olho azul a imagem atingiu-me: a minha mãe numa qualquer casa de banho imunda, uma seringa…a minha mãe morta!

Vejo a sua cabeça retalhada mostrar um gesto de desaprovação, sinto-me mal, como se alguém me tivesse retirado todo o ar do universo e não pudesse mais respirar…chegamos à estação, o comboio pára. Viro-me e corro para a porta que não abre enquanto ouço a sua gargalhada defunta…o comboio começa nova viagem: olho e não vejo ninguém na carruagem. As minhas pernas cedem e eu caio, encostado a uma porta que eu sabia não ir abrir… Lembro-me agora, aquele verso, não o tinha lido. Tinha-o sonhado e fora o meu pai a proferi-lo enquanto olhava para mim desiludido. Não era um simples verso, era uma profecia!

O que sou? Certamente tudo ou talvez um nada completo, misto infeliz de trevas com raios doces do calor da madrugada onde mil sóis dourados velam por mim, moribundo devorado pelo mundo, um ser monstruoso de força bruta, um louco que se esquece e se reinventa na fantasmagórica noite sem fim trazendo a morte em mim. Sou enfim um vácuo nocturno: cego, taciturno!

O seu semblante enrugado olha-me, enquanto eu, no chão prostrado, começo a sentir o sangue aveludado que me beija a pele retalhada da face desfigurada. Vai embalando o bebé que chora de medo, a seu lado uma criança agarra-lhe o braço. Um pequeno orifício avermelhado na sua barriga estraga-lhe a camisa branca soberbamente engomada. Fora aí que o atingira. À velha tinha-a degolado, e agora que a olho com o único olho que me resta, vejo o seu sangue cansado no seu pescoço amarrado. Ao bebé, oh…ao bebé tinha-o sufocado! O meu primeiro serviço: Uma velha mãe e os seus dois filhos! Eu tinha apenas quinze anos…e ali estavam eles, sentados olhando-me com um cínico sorriso nos lábios. A minha cabeça parece explodir, levanto-me a custo e preparo-me para o susto enquanto arranjo coragem para olhar o meu reflexo no vidro espelhado que adorna a carruagem: mas no fundo eu já o sei; Olho, o que vejo? Uma cabeça dividida, em sangue embebida. Metade da face desfigurada, ferida de guerra acabada. O meu primeiro golpe, que agora era realmente meu! Sofreria eu os estigmas da minha maldade?

– Porquê? – A questão impunha-se mas eu não a queria ouvir. Odeia-a por isso. A sua voz soou melodiosa, vinda de um ser antigo de experiência ancestral.

– Foi apenas um trabalho – a minha voz soa de forma inumana, consequência da minha chaga – Para mim vocês foram apenas dinheiro, nada mais!

– Mas como conseguiste? Assassinar-me a mim, uma velha alma que muito tinha visto da vida…isso consigo perceber – as lágrimas rolavam pela sua face que me parecia agora gentil, como pude eu fazer-lhe mal? – Mas magoar duas inocentes crianças, um bebé! – E eu senti-o, a cada palavra eu sentia uma dor profunda, dilacerante, como se milhares de mãos me espancassem; o bebé chorou e eu senti-me sufocado; o miúdo olhou-me, penetrando em mim e revolvendo todo o meu ser pelo caminho e eu senti a minha barriga esfaqueada. A velha olhou-me demoradamente, até se sentir satisfeita. Será que ela percebeu o que ia na alma? Que pior que os estigmas que se abatiam sobre mim, as feridas eu causei e que me matavam lentamente, pior que isso era a dúvida que se abatia sobre mim, o que era eu? Porque matava? E que prazer sentia ao fazê-lo? E porquê? A gargalhada que se ouviu ecoou no meu ser, arrebatando-me de dor, fazendo-me tremer. Riam os três, riam de mim! Sinto o comboio parar mas não olho as portas, sabia que não iam abrir! Fecho os olhos por instantes reflectindo no que posso vir ainda a enfrentar. Estou fraco, uma enorme poça de sangue envolve os meus pés e sinto-me desmaiar…sinto o meu peso abater-se no lodo nojento do meu próprio sangue e perco os sentidos…

Aqui termina a primeira parte…

Roberto Mendes

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